Tive a impressão de que o Brasil havia chegado ao futuro com Lula, diz a editora da Rádio França Internacional

Maria Alencar, chefe da redação brasileira da Rádio França Internacional

O país do futuro virou a República das Bananas. Segundo Maria Alencar, chefe da redação brasileira da Rádio França Internacional (RFI), foi assim que a imagem do Brasil se transformou aos olhos da imprensa francesa.

Vivendo no país há 35 anos, a jornalista conta que sempre ouviu dos franceses que o Brasil seria o país do futuro, que teria chegado com o governo Lula. Mas, com Dilma, o brilho teria começado a arrefecer e seria apagado de vez com seu impeachment.

O que restou foi pessimismo: “Crise e repetição de escândalos mergulham o Brasil no medo; “Brasil está sob o domínio de ruralistas, evangélicos e pró-armas”; “Crise no Brasil e Venezuela faz pobreza aumentar na América Latina”. O país perdeu projeção. Mas será para a imprensa francesa ainda há perspectivas? Confira nesta entrevista exclusiva.

DCM: Nas últimas semanas, a cobertura da imprensa da França sobre o Brasil vem sendo marcada pelo pessimismo. A que se deve essa percepção?

Maria Alencar: Eu acho que nem é nas últimas semanas. Eu tenho a impressão de que 2017 foi um ano que o Brasil não teve muito glamour para a imprensa francesa. O Brasil aparece nas últimas semanas falando da crise das prisões, do problema do Congresso, da corrupção na política… Eu acho que 2017 foi praticamente o tempo todo essa imagem, muito distante da imagem que a gente viveu muitos anos aqui, a imagem que a gente viveu nos primeiros anos do governo PT. É visível essa falta de interesse, principalmente agora no final do ano.

Se falava de prisões, um ano depois daquele terrível massacre nas prisões do norte e nordeste do país. Houve um incidente em Goiás, então voltou à tona toda a questão da superpopulação das prisões e eu acho até que o lado político ficou um pouco de lado porque ninguém aqui está seguindo cada capítulo da Lava-Jato. Então, eu percebo que há um certo desinteresse, há um pessimismo e está se falando muito mais das questões dramáticas da sociedade civil, da violência, das prisões, da desigualdade…

Uma reportagem inclusive destaca a desigualdade, fala em sociedade de castas…

Foi a partir de uma pesquisa do Thomas Piketty, um grande economista muito midiático. Ele fez um trabalho muito aprofundado. Esse foi o título do Le Monde. O problema da desigualdade sempre existiu. Houve uma grande melhora nos anos do governo Lula… Eu acho que essa falta de credibilidade em relação ao Brasil e esse fim do glamour começou também no governo Dilma porque ela não tinha o carisma, ela não investiu em política externa.

Existiam vários eventos que mobilizavam tudo isso; Copa do Mundo, Jogos Olímpicos. Houve um momento de grande esperança, finalmente o Brasil, país do futuro, eu vivo aqui há 35 anos, eu sempre ouvi a partir dos anos 1980 “o Brasil, país do futuro”. Eu tive a impressão que o Brasil tinha chegado a esse famoso futuro, glorioso, ou pelo menos esperançoso. E finalmente, eu acho que desde… Um pouco antes do impeachment, o segundo mandato, a Dilma realmente não foi uma pessoa que ganhou muito espaço na imprensa francesa em geral, eu acho que começou daí. Porque houve menos brilho na política externa.

Na época do impeachment de Dilma Rousseff, ou golpe, a imprensa brasileira e movimentos como o MBL e Vem Pra Rua garantiam que o país sairia da crise no dia seguinte à queda dela com a volta da confiança dos investidores. Foi o que aconteceu?

Mas aí você está perguntando a minha opinião ou a opinião da imprensa francesa?

À vontade…

A gente está falando da imprensa francesa, que é um pouco o objeto da nossa conversa. A imprensa francesa noticia muito pouco. Os resultados foram positivos, o superávit da balança comercial, a diminuição recorde da inflação. E um jornal especializado, que é o Les Echos, falou um pouco sobre isso, mas ele falou de uma maneira “apesar do governo Temer ter controlado, da economia estar um pouco melhor. Com esses dados da balança comercial, dos dados da inflação”, que é uma inflação que incidiu nas famílias menos favorecidas, o que é positivo, porque foi uma coisa muito ligada ao preço dos alimentos”. Mas a imprensa francesa generalista não repercute esse tipo de coisa.

Então continua o pessimismo, a falta de projeção internacional e um pouco de cansaço. Eu fui muito convidada para participar de debates. Hoje em dia, recentemente eu participei de um, para explicar a situação das prisões, a superpopulação, a situação do narcotráfico, enfim. Eu acho que a coisa vai deslanchar ou vai voltar a interessar a imprensa francesa a partir realmente das eleições e talvez a partir do dia 24 de janeiro, quando haverá em Porto Alegre o julgamento do Lula. Não sei, parece que haverá uma coisa mais clara, ele será candidato, ele não será candidato. Embora, pelo que eu li, a coisa pode continuar não muito clara, com os recursos de justiça. E se a coisa continuar não muito clara, eu tenho a impressão de que a imprensa vai continuar esse desinteresse pelo Brasil. Porque, para a imprensa francesa, eu acho que o lado corrupção, Congresso, evangélicos criou um clima de república de bananas na visão deles.

Houve uma certa diminuição ainda mais intensa da imagem do Brasil?

Exato. Antes, eu acho que houve momentos de grande brilho, uma grande esperança, o carisma do Lula, que tem uma história pessoal, isso provocou muito interesse.

Essa imagem e esse interesse começaram a arrefecer com o governo Dilma?

Eu diria isso. Elas já era lançada como a “dauphine”, a protegida do Lula, na visão da imprensa francesa. Mas realmente a história do impeachment foi uma coisa que deu esse ar de pouca credibilidade. A imprensa francesa noticiou e depois disso, o Brasil perdeu espaço. Embora em termos econômicos, tem uma coisa ou outra que sai. Efetivamente, no Les Echos, um jornal econômico, fala-se em uma melhora da economia, mas isso não impede a desigualdade, a violência em termos numéricos, e isso não cria nenhum interesse pela figura do Michel Temer, que é um mero desconhecido. As pessoas não buscam entrevistas com o Michel Temer aqui na Francesa. Não vi nenhuma aqui, pelo menos.

Você citou o Les Echos, mas o próprio Les Echos, apesar de repercutir os dados positivos, destaca o lado negativo. Ele diz: “crise e repetição de escândalos mergulham o Brasil no medo”…

Exatamente. O que o Les Echos diz é apesar da melhora da economia em termos gerais, o tema é claramente pessimista. Na AFP, falou-se da história dos prisioneiros indo, fazendo fila pra cheirar cocaína. As imagens são, não vou dizer caricatas porque não são mentiras, mas fica exacerbado o que há de mais violento. Porque quando você ouve falar que cortaram cabeças, eu acho que há um certo cansaço em relação ao Brasil, embora o país exerça um fascínio total em termos de opinião pública para os franceses. Hoje, eu estava na cantina almoçando e tinha um funcionário da casa dizendo que esteve no Rio. A expressão dele mudou. O Brasil tem um capital empatia enorme na França. Mas eu acho que a coisa vai engatar quando houver sinalizada alguma coisa um pouco menos…

Uma perspectiva.

Uma perspectiva, exatamente. Claro que as pessoas vão começar daqui a pouco a repercutir, na minha opinião, a candidatura Bolsonaro, que eu acho que não caiu a ficha. As pessoas aqui não estão falando muito, é a impressão que eu tenho.

Mesmo ele tendo paralelos, por exemplo, com a Marine Le Pen…

É… Exatamente. Eu acho que os contextos são tão diferentes que é difícil ter paralelos, mas é claro que é possível. Eu acho que a Marine Le Pen dourou a linguagem, amenizou a linguagem dela na medida em que ela foi candidata às eleições (presidenciais) e não foi uma só vez. O Bolsonaro, não sei se ele vai chegar a esse ponto, de tentar ser ameno ou politicamente correto. Mas eu tenho a impressão que a imprensa francesa ainda não repercutiu esse fenômeno do conservadorismo. Eles falam do Congresso, aquela grande matéria sobre a bancada BBB, mas eu acho que ela (a imprensa francesa) não repercutiu seriamente o que está em jogo no Brasil.

A possível candidatura do apresentador Luciano Huck à presidência também não aparece, não repercute?

Não. Os jornais que têm correspondentes é o Le Monde, o Les Echos, o Libération eu não sei em que medida a correspondente está sempre lá. O La Croix é um jornal que sempre fala do Brasil… Acho que é uma tradição da Igreja Católica, nos anos 1970, 1980, que era alinhada à Teologia da Libertação, existia toda uma opção pela pobreza, para defender os pobres. O La Croix segue essa linha e continua falando sobre o Brasil. Fez uma grande reportagem com reflexões de fundo sobre a descriminalização da droga, sendo um jornal católico, falou da pastoral. O Les Echos fez uma matéria sobre os riscos do populismo no Brasil, deu alguns nomes, mas não citou o do Luciano Huck. Falou do Bolsonaro, mas botou uma foto do Lula. Eu acho que o Lula fascinou muito a imprensa francesa. Mas a imagem dele também foi afetada na imprensa francesa, isso não resta dúvida.

Era isso que eu ia perguntar e vou perguntar. Mas antes, como repercutiram as denúncias de corrupção sobre Temer?

Muito mal. Falou-se da JBS, falou-se da mala de dinheiro, do Geddel, mas sempre naquela coisa meio “república das bananas”. Eu acho que houve, para uma parte da imprensa, houve uma decepção com o Lula sim. Acho que sim. E eu acho que a imprensa esteja querendo ver outra coisa, um caminho, uma outra perspectiva. Mas a imprensa reporta o que acontece no Brasil. E aparentemente nesse julgamento… Aqui na RFI já está se planejando. Um correspondente será mandado para Porto Alegre. Eu acho que nesse dia, 24 de janeiro, o Brasil vai de novo estar presente. E eu espero que as pessoas consigam contextualizar um pouco isso, falar de uma maneira menos básica e factual, mas tentar mostrar um pouco, traçar alguma coisa mais aprofundada.

O Le Monde falou de Lula como esperança para os pobres…

A correspondente do Le Monde passou por todas as etapas. Na época do impeachment, ela defendeu, ela reproduziu o que os jornais brasileiros narravam, ela reproduziu o discurso da imprensa brasileira. O Le Monde fez um editorial dizendo no título: “Isso não é golpe”. Houve uma certa reação, os ex-exilados, os grupos de esquerda. Depois, o Le Monde fez outro editorial, se desculpando, que finalmente a correspondente não tinha levado em conta uma reação mais global da população brasileira e ela começou a fazer uma cobertura mais acertada, ouvindo diferentes meios e diferentes tendências políticas. Mas acho que ainda não está se falando ainda do cenário eleitoral de maneira mais detalhada.

Você tem esperança? Você vê o Brasil com um retorno à esperança?

Eu tenho esperança. Eu acho que o Brasil vai viver um novo momento, tem tudo pra isso, é um país cheio de energia, cheio de possibilidades. Acho que é uma transição esquisita que o país está vivendo. Eu vivi uma boa decepção com tudo que vem acontecendo. E acho que mesmo se a economia melhorou, não sei exatamente a dimensão dessa melhora, o que vai acontecer a longo prazo, mas existe um problema moral, de um Congresso, de denúncias graves, um presidente que tem várias denúncias contra ele de corrupção, essa  bola de neve que é o Congresso brasileiro. No governo Lula, as alianças não eram de uma moralidade à toda prova… mas como muita gente, eu fiquei frustrada decepcionada com os últimos acontecimentos no Brasil.

Isso não impede que haja esperança. Mas a gente não vê no cenário eleitoral A esperança. Eu tenho a impressão que eu não estou vendo ainda a esperança. Está um momento de pessimismo realmente. Eu realmente vivi o Brasil como país do futuro e foi intenso o momento que o Brasil estava vivendo, em termos de igualdade social houve uma melhora, me entusiasmou muito, principalmente a França, que é um país que se preocupa muito com a igualdade social e defende os direitos. Mas sim, esperança sim, não se pode viver sem esperança.

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