“Tive que fechar para balanço”: o tributo de Caetano a Anna Karina, musa da nouvelle vague

atriz Anna Karina, em setembro de 1961, ano de seu casamento em Paris com Jean-Luc Godard. UPI-AFP ARCHIVES / AFP

Publicado originalmente na fanpage de Facebook do autor

POR CAETANO VELOSO

Muitas pessoas que amo e admiro morreram. Isso acontece o tempo todo. Quando a gente fica mais velho, o ritmo acelera. Normal. Sou de uma geração que teve motivos para supor que viu mais amigos, amantes e ídolos morrerem ao longo da juventude do que acontece geralmente.

Drogas, prisões, aids. Mas deve ser ilusão. Outras viram guerras, desastres econômicos, e, em regiões delimitadas, secas, enchentes, terremotos. Escrevo raros posts aqui. Obituários são frequentes.

Normal.

Mas Anna Karina morrer é demais para mim. Suponho que para a maioria das pessoas que lêem posts em redes sociais ela não seja ninguém. Para mim, Anna Karina é uma das mais fortes maravilhas das telas de cinema. Eu a encontrei uma vez: a produtora Liège Monteiro e o cineasta Neville de Almeida me apresentaram a ela aqui no Rio.

E fiquei muito emocionado ao vê-la de perto.

Mas a notícia de que aquela moça de O Demônio das Onze Horas, de Viver a Vida, de Uma Mulher É Uma Mulher – o encantamento mais intenso do fim de minha adolescência – morreu me fez sentir (até hoje só tinha pensado, mas agora é visceral) a necessidade de fechar para balanço. Fui ver Henrique Vieira no Carlos Gomes, conversei com familiares e amigos, mas eu não estava aí.

Estava sozinho dentro de mim mesmo, chorando e sabendo que tenho que pesar as coisas da minha vida de outro modo.

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