“Tivemos anos de descalabro na USP”: Vladimir Safatle fala ao DCM

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Vladimir Safatle, professor livre-docente da Faculdade de Filosofia da USP, está na dianteira dos debates a respeito da crise orçamentária da maior universidade da América Latina.

No primeiro ano de gestão, o reitor Marco Antonio Zago congelou os salários dos professores, sem um aumento proporcional à inflação, o que ocasionou uma greve que já dura três meses.

Safatle, responsável pela gestão de bolsas de estudos, faz críticas pesadas ao modelo de gestão da instituição. Filiado ao PSOL, ele não conseguiu viabilizar sua candidatura a governador de São Paulo. Em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, tem sido um crítico ácido do governo Alckmin, que batizou de “Tucanistão”.

O DCM foi conversar com Safatle sobre a crise da USP, o risco de se taxar com anuidades ou mensalidades e seu envolvimento na campanha de Luciana Genro à presidência.

Quais são os perigos que a universidade enfrenta se esta crise continuar?

Se for verdade que a folha de pagamento compromete o orçamento da USP, não vai adiantar dar um aumento no ano que vem, mantendo o congelamento de hoje. Há uma grande possibilidade de 2015 se tornar um ano de recessão econômica, diminuindo o valor do ICMS que ajuda a sustentar a Universidade de São Paulo. A crise só tende a piorar e temos um risco real de diminuir o corpo docente com demissões. Ou você flexibiliza o regime de trabalho, expulsando as pessoas da pesquisa, ou você cobra uma anuidade de alunos. Qualquer uma dessas previsões é catastrófica para a universidade pública, que ainda é gratuita.

Há um risco real de haver mensalidades na USP? 

Sim, e isso é discutido já na universidade. Principalmente porque não há uma proposta do governo estadual de melhorar o nosso tipo de financiamento público. Mas a ideia é absurda para uma instituição pública como a USP. Os tais alunos que podem pagar essa mensalidade possuem uma renda familiar estimada em 7 mil reais. A mensalidade seria cerca de mil reais, chegando até 2 mil. Para uma família de dois filhos, com as atuais despesas com outros fins, ela seria obrigada a se endividar para educar os jovens.

Também estipularam uma taxa menor, simbólica, de 500 reais. Mas sabemos como isso funciona. Começa com 500, sobe para mil e chega até mais de 2 mil. Corre-se o risco de transformar a Universidade de São Paulo em uma PUC, onde os estudantes pagam cerca de 3 mil reais em alguns cursos.

Qual é a sua opinião sobre o congelamento salarial e a consequente greve na USP?

Não acredito que a greve acontece apenas por uma questão salarial, e sim por um esgotamento produzido pelas dificuldades da gestão da Universidade de São Paulo. Existem dois grandes modelos de gestão universitária. Um é o modelo norte-americano, com uma clara distinção entre o setor administrativo do acadêmico, com um presidente e um administrador com funções diferentes. E outro modelo é o europeu, com representantes eleitos pelo conselho universitário. Cada um dos dois possui sua racionalidade interna.

E a USP segue qual modelo?

Nem um e nem outro. O conselho universitário é completamente opaco e não tem nenhuma representatividade. Criou-se uma casta burocrática que se tornou autônoma em relação ao restante da USP, se perpetuando de uma administração para outra. Ela é a responsável pela crise na universidade. A história que eles apresentam é que a folha de pagamento é responsável pelo patamar de 105% do orçamento. Agora, há duas questões que precisam ser levantadas com esta hipótese. A USP Leste teve uma expansão de sua infraestrutura sem uma melhoria de sua educação orçamentária.

Era óbvio que iria explodir de alguma forma, desde o início do campus leste isso era levantado. A segunda questão é que a reitoria anterior, de João Grandino Rodas, foi incapaz de apresentar uma solução. A gestão também foi completamente irresponsável nos gastos, fragilizando as finanças da universidade. Isso tudo causou um déficit de cerca de um bilhão de reais, sem que ninguém assumisse a responsabilidade de fato pela situação. Pior defeito do homem, nesses casos, é transferência de responsabilidades. Isso é a regra para os nossos gestores.

Quais foram os gastos da gestão Rodas? Por que a USP, em crise hoje, ainda está fazendo reformas estruturais que podem ser vistas no campus Butantã?

A gestão anterior fez uma série de novos prédios e escritórios absurdos em Cingapura, em Londres e até na cidade de Boston. Prédios foram comprados no centro da cidade de São Paulo, fora do campus. Bolsas também foram dadas sem uma avaliação correta sobre o impacto e a necessidade delas.

Tivemos quatro anos de descalabro administrativo inacreditável, enquanto a universidade e os universitários insistiram que a instituição precisava de mais transparência e de mais democracia.

A sociedade civil foi completamente surda para essas demandas da USP, estigmatizando os protestos. É uma universidade que custa 5 bilhões de reais, recebe ICMS do estado e não é administrada de uma maneira minimamente transparente, sendo que ela é pública.

Marco Antonio Zago, diferentemente de Rodas que foi selecionado por José Serra, foi eleito pelo conselho universitário. Ele teria alguma forma de evitar a crise que a USP vive hoje?

Se ele tivesse vontade de mudar isso, sim. Até agora, a reitoria só deu provas de uma inabilidade de diálogo completamente aterradora. Nosso reitor acabou de dizer que o impacto desta greve é próximo de zero. Eu queria entender como ele concluiu isso. Sou presidente do conselho de cooperação internacional da faculdade na USP. Nós temos 93 acordos fora do país. Neste exato momento, nós estamos com alunos que vieram de outras localidades voltando para suas universidades de origem, porque eles não sabem se vão ter aula ou não.

Eles estão amedrontados não só porque a USP está em greve, mas também porque não dá nenhuma garantia se vai haver ou não aulas. Esse tipo de situação é destrutiva para a maior universidade brasileira. Eles vão voltar aos seus países dando as piores informações possíveis sobre a nossa instituição, e as universidades internacionais estão cobrando um diálogo.

Tudo isso vai ter um efeito avassalador nos rankings globais, que os burocratas da educação tanto gostam. Todo o investimento gasto com essas bolsas foi jogado fora, porque não é possível que em menos de um ano a USP tenha duas greves de praticamente três meses cada.  A Universidade de São Paulo responde por 25% da pesquisa de todo o país e tem a aspiração de ser a referência na América Latina. A reitoria não entende esse valor e, pelo visto, nós estamos nos autodestruindo a olhos vistos.

Depois do abandono de sua candidatura a governador do estado, você continua envolvido nas discussões do PSOL?

Estou envolvido de leve. Ajudei a Luciana Genro [candidata à presidência] com algumas propostas e as bases de campanha do PSOL realmente pensam em ajudar a universidade pública. O problema é que a própria candidatura da Luciana foi decidida em junho, numa situação muito difícil e com o partido envolvido em disputas internas. Isso impactou de maneira negativa e a candidata está sem tempo para trabalhar parcerias. Ficou tudo muito machucado.

Nenhum partido se preocupa com a USP?

Estamos em greve há três meses. Qual candidato veio visitar a universidade? O governador, que quer ser reeleito e é responsável pela universidade, não tem propostas para melhorar a instituição. Ele trata como se não tivesse nada a ver com isso, o que demonstra para mim mau-caratismo. Não estamos falando de qualquer lugar, mas do maior centro de pesquisa do Brasil, com desenvolvimento tecnológico e educacional do país. Os alunos que fazem parte da USP têm uma inserção acadêmica assegurada.

 

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