Todo dia um homem se casa com uma mulher bem mais nova, mas só Zé de Abreu incomoda. Significa. Por Nathalí

Um estado teocrático instalado, o governo mancomunado com as milícias, o terrorismo fundamentalista de extrema-direita chegando com o pé na porta em plena noite de natal, e a maior preocupação de boa parte dos brasileiros é o casamento de Zé de Abreu.

Aos 73 anos, ele pediu a namorada, a maquiadora Carolynne Junger, de 22, em casamento, e isso se transformou em uma polêmica de domínio público.

A publicização da vida íntima, policiada como se fosse problema de todo mundo, é uma das marcas bizarras dessa geração da Tradicional Família Nacionalista.

Assuntos públicos realmente importantes – e realmente coletivos – são negligenciados enquanto os conservadores se preocupam em fiscalizar quem gosta de sexo anal, quem fuma um baseado no fim do dia ou quem pede em casamento uma mulher mais nova.

Conservadorismo puro.

E o pior é que a esquerda, seduzida pela terrível tentação de desprezo ao indivíduo tem também tem incorrido frequentemente nesse erro, sem perceber que isso não nos pertence, não combina com nossa luta libertária, tampouco com nossos valores.

A última vítima, ao que me ocorre, foi Caetano.

Xingado de pedófilo por se casar com uma mulher mais nova – até hoje sua mulher, diga-se – processou os caluniadores e ganhou.

Noutra oportunidade, foi a vez de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães, perseguidos por cometerem o crime de se amarem. Seguem ótimos com seu filho e suas carreiras tinindo, enquanto os faladores passam mal.

De um lado, um extrema-direita que impõe valores cristãos como se a liberdade de expressão e a laicidade do Estado não existissem; de outro, uma esquerda que, mesmo resistindo bravamente, por vezes não se contém e também cai no conto do policiamento da vida alheia.

Parem. Nós somos melhores que isso.

Nós somos capazes de saber que a idade da mulher com quem Zé de Abreu vai se casar não nos diz respeito. Se ela não é uma criança ou uma civilmente incapaz, a questão diz respeito inteiramente aos noivos: todo o resto é patrulha desnecessária e inútil.

Se eles se casarão por amor, por dinheiro ou por loucura, pouco importa. Eles se casarão porque querem, e isso é tudo.

Deixemos que o amor aconteça e nos limitemos a apreciá-lo. Sem tempo, irmão: a gente tem muito ódio pra combater. Não há tempo pra especular sobre o casamento alheio.

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