“Todo mundo aprecia um bom crime, contanto que não seja vítima dele”

Uma conversa com Alfred Hitchcock, o gênio dos filmes de suspense.

"Se eu dirigisse Cinderela, a audiência começaria imediatamente a procurar por um cadáver na carruagem."
“Se eu dirigisse Cinderela, a audiência começaria imediatamente a procurar por um cadáver na carruagem.”

Sir Hitchcock, o senhor é considerado por muitos o maior cineasta de todos os tempos. Em geral, seus filmes giram em torno de um enredo assustador. Por que escolheu esse tema?

Porque a melhor maneira de me livrar de meus temores é fazendo filmes sobre eles. E, bem, porque comecei a fazer filmes de mistério e logo percebi que plagiar a si mesmo é estiloso. Deu certo – tanto que, se eu dirigisse Cinderela, a audiência começaria imediatamente a procurar por um cadáver na carruagem.

Compreendo.

E o medo não é tão difícil de se compreender. Afinal das contas, todos nós nos assustávamos quando crianças. Absolutamente nada mudou desde que a chapeuzinho vermelho enfrentou o lobo mau. O que nos assusta quando somos adultos é a mesma coisa que nos assustava quando éramos pequenos. É só um lobo mau diferente. O complexo do medo está enraizado em cada indivíduo.

E, então, você deixou uma marca na história.

Deixei uma marca na história porque agi de acordo com três regras essenciais do cinema. A primeira é que quanto melhor o vilão, melhor o filme. Depois, que o golpe não é extremamente aterrorizante – só a antecipação dele. A terceira, que é tão importante quanto as demais, é que a duração de um filme deve ser compatível com a resistência da bexiga humana.

Concordo plenamente. Mas que palavras divertidas!

Sempre fui divertido. Sou um escritor e, consequentemente, isso faz de mim um personagem duvidoso.

Dizem, no entanto, que você não tinha um relacionamento muito bom com seus atores. Tippi Hedren afirma que você arruinou a carreira dela e muitos dizem que você afirmava que atores eram como um rebanho.

Eu nunca disse que atores são um rebanho. Tudo o que eu disse era que atores deveriam ser tratados como um rebanho.

É claro. E a audiência?

Sempre faço a audiência sofrer tanto quanto for possível. Eu lhes dou o mesmo prazer que sentem ao acordar de um pesadelo. A verdade é que todo mundo aprecia um bom crime, contanto que não seja vítima dele.

Grace Kelly, uma das atrizes favoritas do diretor. "Sempre procurei loiras sofisticadas do tipo sala de visita", ele explica.
Grace Kelly, uma das atrizes favoritas do diretor. “Sempre procurei loiras sofisticadas do tipo sala de visita”, ele explica.

Falamos agora há pouco de seu relacionamento com Tippi Hedren e das atrizes que apareciam em seus filmes. Elas eram, em geral, loiras lindas e sofisticadas. Por que a preferência?

Porque o suspense é como uma mulher. Quanto mais é deixado para a imaginação, mais excitante fica. A loira peituda convencional não é misteriosa. E o que poderia ser mais óbvio do que o velho veludo preto e as pérolas? A perfeita “mulher misteriosa” é aquela loira, sutil e nórdica. As loiras são e sempre serão as melhores vítimas. Elas são como a neve virgem na qual há pegadas ensanguentadas. Não afirmo ser uma autoridade em relação às mulheres, mas suponho que, assim como o título perfeito para um filme, a mulher perfeita é difícil de se encontrar.

Grace Kelly foi uma de suas loiras favoritas, não é?

Sim. E você sabe por que? Porque nunca me entusiasmei com mulheres que exibem sua sexualidade como bolinhas de árvore de natal. Acho que as mulheres devem ser gradualmente descobertas. É muito mais interessante ter que encontrar a sexualidade em uma mulher do que tê-la jogada em você, como acontece com aquela bela Marilyn Monroe e outras desse tipo. Para mim, elas são vulgares e óbvias. Sempre procurei loiras sofisticadas do tipo “sala de visita”, as damas de verdade que se tornam putas quando levadas para a cama. O que me intriga é o paradoxo entre a aparência gelada e o fogo interno. Porque o sexo não deve ser anunciado – eu lhe garanto que, sem o elemento surpresa, as cenas se tornam insignificantes.

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