Toffoli, Mendonça e o Master: entre o acaso e o arranjo, fabrica-se a normalidade

Atualizado em 13 de fevereiro de 2026 às 18:43
Os ministros Dias Toffoli e André Mendonça. Foto: Divulgação

Sem qualquer desejo de perturbar o clima festivo do carnaval, sinto, ainda assim, um discreto impulso de espírito de porco de compartilhar uma leitura nada confortável sobre a substituição de Dias Toffoli por André Mendonça na relatoria do caso Master. A meu ver, o episódio representa uma vitória expressiva da convergência entre o bolsonarismo e o pentecostalismo argentário — duas das estruturas de poder mais organizadas e influentes hoje no país. Mais significativa, contudo, do que esse avanço é a natureza da derrota que o tornou possível: o campo progressista, por ação, omissão ou cálculo equivocado, acabou funcionando como correia de transmissão, o mais eficiente canal de legitimação do desfecho que agora lhe é desfavorável.

O sentido desse movimento torna-se mais claro quando o episódio é observado para além do resultado imediato. A transferência do processo das mãos de Toffoli para a relatoria de Mendonça já mereceria atenção por suas implicações institucionais. Examinada com maior cuidado, porém, essa mudança revela algo mais amplo: o rearranjo interno do sistema de Justiça e a construção prévia de um ambiente narrativo destinado a tornar esses rearranjos aceitáveis, naturais e até tranquilizadores. Trata-se de um método já conhecido, no qual pressão pública seletiva, mediação jornalística orientada e desfechos institucionais se encadeiam de modo a legitimar previamente o resultado. Sob esse padrão, observa-se a reedição do lavajatismo, sem alteração relevante de forma ou de lógica. Lavajatismo em estado bruto — claro e cristalino.

É nesse ponto que o caso Master se torna relevante.

Em democracias consolidadas, decisões institucionais de grande impacto costumam ser acompanhadas por escrutínio rigoroso e debate público qualificado. No Brasil midiático, marcado pela cultura lavajatista, a lógica frequentemente se inverte. Antes mesmo que a discussão amadureça, forma-se uma moldura interpretativa que antecipa conclusões, simplifica contextos e reduz o espaço da crítica ponderada. Esse enquadramento prepara o ambiente de recepção, tornando plausíveis — e muitas vezes naturais — os desfechos que virão. Nesse contexto, a atuação de determinados segmentos da mídia deixa de ser mera mediação informativa e passa a integrar, ainda que indiretamente, a própria dinâmica política.

A sequência que culminou na mudança de relatoria ilustra esse mecanismo. Ela não se construiu apenas nos bastidores do Supremo. Foi antecedida por um fluxo contínuo de reportagens, vazamentos seletivos e hipóteses gradualmente elevadas à condição de narrativa dominante, deslocando o foco das questões estruturais para episódios laterais e suspeições personalizadas. O percurso teve início com informações atribuídas a “fontes” sobre um contrato milionário envolvendo a atuação profissional da esposa do ministro Alexandre de Moraes em demandas relacionadas ao Banco Master. Em seguida, o eixo das suspeitas deslocou-se para o ministro Toffoli e, posteriormente, alcançou o ex-ministro Lewandowski. Conta após conta, as revelações foram compondo um rosário narrativo no qual ministros surgiam como peças sucessivas de um mesmo enredo.

É nesse momento que se ativa a armadilha moral que, com frequência, captura o campo progressista.

De forma pouco percebida, o campo progressista acabou assumindo, com notável eficiência involuntária, o papel de fio que sustenta esse rosário. Sensível a apelos de natureza moral, amplificou cada nova conta acrescentada à sequência e contribuiu para adensar a atmosfera de excepcionalidade. O acúmulo progressivo dessas indignações, cuidadosamente alimentado, tornou plausíveis os rearranjos institucionais que viriam em seguida, enquanto novas etapas eram antecipadas pelas mesmas “fontes” que haviam iniciado o percurso.

Vencida a primeira etapa, a fase seguinte começou imediatamente. Mal havia ocorrido a substituição, o jornalismo engajado inaugurou o movimento de normalização. A narrativa oferecida é um reconfortante calorzinho no coração de qualquer indignado: o sistema de distribuição seria rígido — sim, trata-se da conhecida roleta do STF, aquela de uma escolha só —, um mecanismo impessoal, sem intervenção humana, apresentado como simples jogo de sorte. Assim, o desfecho passa a ser tratado como produto de um procedimento técnico, enquanto o novo relator é descrito como alguém de perfil jurídico, firme, independente e, eventualmente, até mais rigoroso do que seus pares.

A imagem projetada do novo relator é a de um magistrado austero, imune a pressões e disposto a agir com firmeza institucional.

Essa caracterização, contudo, perde consistência quando se considera a trajetória política que levou André Mendonça ao Supremo. Sua indicação resultou de um compromisso público com o bolsonarismo e com o campo neopentecostal. A escolha do “terrivelmente evangélico” não teve natureza técnica, mas correspondeu a uma aposta estratégica em alguém considerado confiável por uma coalizão específica de poder.

Nesse contexto, a expectativa plausível não é de um endurecimento uniforme, mas de uma atuação seletiva. Em processos que tangenciam interesses sensíveis, o papel esperado de Mendonça tende a ser o de reduzir tensões, amortecer riscos e, quando necessário, estabelecer zonas de proteção institucional.

O caso envolvendo o Banco Master ajuda a dimensionar esse arranjo com maior precisão. Investigações em curso e reportagens de veículos como Agência Pública e InfoMoney indicam a existência de vínculos pessoais, institucionais e operacionais entre o entorno do controlador da instituição, Daniel Vorcaro, e lideranças da Igreja Batista da Lagoinha. O pastor André Valadão lançou, em 2024, a fintech Clava Forte Bank, voltada ao público evangélico e sediada no mesmo edifício da igreja, em Belo Horizonte. Parlamentares solicitaram ao Banco Central esclarecimentos sobre a natureza de suas operações e sobre eventuais relações contratuais, societárias ou operacionais entre a Clava Forte e o Banco Master, hipótese que permanece sob apuração. Ao mesmo tempo, reportagens apontam relações de longa data entre as famílias Vorcaro e Valadão, incluindo conexões empresariais e iniciativas no campo da comunicação religiosa.

Daniel Vorcaro, Foto: Divulgação

Situadas em um plano político mais amplo, essas intersecções ajudam a compreender a densidade das redes que articulam finanças, liderança religiosa e representação parlamentar. Trata-se de um campo que mantém interlocução direta com o centrão, com o bolsonarismo e com o universo neopentecostal, hoje uma das bases eleitorais mais disciplinadas e capilarizadas do país. Nesse contexto, decisões judiciais capazes de aliviar pressões sobre esse circuito ultrapassam o plano estritamente técnico e passam a produzir efeitos sobre a estabilidade de alianças, a circulação de recursos e o ambiente político que antecede a disputa eleitoral.

Uma relatoria inclinada a reduzir a intensidade das pressões jurídicas sobre esse conjunto de interesses tende, assim, a produzir efeitos que vão além do âmbito processual. Entre eles, a estabilização de arranjos políticos, a preservação de circuitos financeiros e a diminuição de incertezas em um período de reorganização eleitoral.

É aqui que o movimento institucional encontra seu significado político mais amplo.

O bolsonarismo, embora derrotado nas urnas, mantém três pilares de força: base social mobilizada, articulação parlamentar pragmática e presença estratégica em posições institucionais permanentes. Ao mesmo tempo, o campo neopentecostal expandiu sua influência econômica, midiática e eleitoral. A combinação desses fatores exige um ambiente de menor risco jurídico para seus operadores centrais.

O papel da mídia, nesse quadro, não é apenas o de observadora. Ao apresentar a mudança de relatoria como resultado neutro de um sistema automático e ao projetar sobre o novo relator uma imagem de rigor imparcial, ela contribui para reduzir a vigilância pública no exato momento em que sua intensificação seria mais necessária.

Não se trata de uma conspiração centralizada, mas de um alinhamento funcional entre interesses institucionais, agendas políticas e rotinas jornalísticas que privilegiam a normalização do cenário. O resultado é uma narrativa que suaviza deslocamentos relevantes e transforma escolhas políticas em acontecimentos administrativos. É da essência do lavajatismo.

Democracias raramente se fragilizam por rupturas abruptas. O enfraquecimento costuma ocorrer por meio de acomodações sucessivas, pequenas concessões interpretativas e mudanças de expectativa que alteram, pouco a pouco, o padrão de funcionamento das instituições.

A substituição de Toffoli por Mendonça deve ser lida dentro dessa lógica ampliada. Não como episódio isolado, nem como mero resultado de procedimentos internos, mas como parte de um processo em que rearranjos institucionais, redes de poder político-religioso e construção mediática operam em sincronia.

O risco democrático não está apenas no conteúdo das decisões futuras. Está na consolidação de um padrão em que grandes coalizões conseguem, ao mesmo tempo, influenciar posições-chave e moldar a percepção pública sobre elas.

Sistemas constitucionais resistem enquanto a sociedade mantém a capacidade de estranhar o que é apresentado como rotineiro. Quando movimentos politicamente orientados passam a ser percebidos como simples fatos técnicos, a vigilância diminui.

E democracias, como se sabe, tornam-se vulneráveis não quando a crítica é excessiva, mas quando ela se torna rara.