Trabalho mata

A morte do chinês Li Yuan por stress é uma tendência e não uma exceção.

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Em algum momento de preguiça todos já devemos ter ouvido de nossos pais, ou pior, de nossos chefes, a universal e milenar frase: ninguém morre de trabalhar.

Rebele-se, pobre proletário. Morre sim.

O chinês Li Yuan trabalhou de 13 a 14 horas por dia, sete dias por semana, durante mais de um mês. Às 5 da tarde de um dia na semana passada Li caiu duro no escritório da filial de Pequim da agência de propaganda Ogilvy. Tinha 24 anos.

Li Yuan morreu de insuficiência cardíaca (infarto) e há a possibilidade que fosse um problema congênito. Não há como negar, entretanto, mesmo que a cardiopatia se confirme, que o excesso de trabalho não tenha colaborado. E ainda que a diretora da Ogilvy, Selina Teng, tenha se apressado em afirmar serem falsas as informações sobre longas jornadas de trabalho (aqui podemos fazer uma pausa para rir), colegas da agência confidenciaram que ele sempre chegava cedo e não saia antes da meia-noite. E não por vontade própria.

A história de Li Yuan seria apenas mais uma se ele não trabalhasse numa multinacional inglesa que confirmou o ocorrido via twitter (“Lamentavelmente, a notícia triste é verdadeira, Pequim perdeu um dos nossos. Ele era amado por todos. Agradecemos as mensagens de carinho”). A partir daí a notícia gerou barulho na web mundo afora.

As conseqüências do excesso de trabalho na China matam atualmente 600 mil trabalhadores por ano. Seiscentos mil.

Por quê? O que explica que chineses estejam saindo das asfixiantes minas de carvão direto para o trabalho “civilizado” e mesmo assim continuem morrendo do que eles chamam de guolaosi (algo como “Super Trabalho”), fazendo com que tenham ultrapassado o Japão nesse quesito? No Japão o fenômeno é conhecido como karoshi.

Domenico de Masi define a maioria das empresas atuais como as instituições mais conservadoras que existem e portadoras do que chama de Síndrome de Clinton. Desejam ter seu funcionário (ou estagiária) sempre à mão, acessível 24 horas por dia. Um imenso paradoxo numa época em que a tecnologia permite, e até exige segundo os conceitos do professor italiano, jornadas menores.

Além desse inegável abuso, De Masi credita ainda ao dogma empresarial de que a eficiência seja infinita, que se pode aumentar a eficiência ao infinito e além, sem se preocupar com o stress, sem se preocupar com a capacidade de metabolizar toda essa carga (os sintomas associados com essas mortes incluem insônia, anorexia e dores abdominais, algo já muito comum entre trabalhadores do mundo todo).

Resumindo, a responsável maior pelas baixas nos campos de trabalho continua atendendo pelo nome de ganância. Guolaosi, karoshi, stress ou qualquer nome que se queira dar é o efeito colateral da ganância.