Traficantes e membros de torcida organizada: os brasileiros que lutam na guerra da Ucrânia

Atualizado em 19 de maio de 2026 às 21:14
Anderson (à direita, agachado) segura bandeira da Torcida Jovem do Flamengo com outros voluntários guerra da Ucrânia

POR MAGIDE VIEIRA, mestranda em Relações Internacionais pela UERJ

A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, ganhou uma nova dimensão no debate público brasileiro ao longo do primeiro semestre de 2026. Uma sequência de reportagens, investigações jornalísticas e dados divulgados pelo Itamaraty passou a revelar não apenas o aumento do número de brasileiros mortos ou desaparecidos no conflito, mas também mudanças no perfil daqueles que vêm sendo recrutados para atuar nas linhas de frente.

O cenário expõe uma combinação de precariedade social, propaganda digital e violência extrema que transformou o Brasil em uma fonte constante de combatentes estrangeiros para a guerra. Esta guerra que já se estende há 4 anos, enfrenta baixas em soldados nacionais, especialmente a ucrânia, país invadido pela Rússia, no qual muitos homens se refugiaram.

E na falta de soldados nacionais, um novo interesse: os mercenários de regiões mais pobres do planeta.

Em janeiro de 2026, o Ministério das Relações Exteriores apontou que ao menos 17 brasileiros haviam morrido no conflito e outros 42 estavam desaparecidos. Poucos meses depois, os números se agravariam significativamente. Em maio, os dados oficiais indicavam 31 mortos e 67 desaparecidos, demonstrando a velocidade com que a participação brasileira no fronte vinha crescendo.

Entre os casos que mais repercutiram está o de Igor Amazonas, estudante de Direito da USP, de 23 anos, que deixou o Brasil entre maio e junho de 2025 para se juntar às forças ucranianas. Sem nenhuma experiência militar, Igor foi enviado para fronte, e como escudo humano morreu e seu corpo nunca foi recuperado, permanecendo até hoje na lista de desaparecidos da embaixada brasileira em Kiev.

A trajetória do jovem passou a simbolizar uma geração atraída por discursos idealizados sobre heroísmo, liberdade e transformação pessoal.

Outro episódio que gerou forte repercussão ocorreu em fevereiro de 2026, quando o SBT News revelou a morte de Bruno Gabriel Leal da Silva, de 24 anos. Diferentemente de outras baixas registradas no conflito, Bruno teria morrido após uma sessão de tortura pelo seu próprio batalhão, e veio a óbito após um espancamento coletivo dentro de sua base militar.

A violência teria sido autorizada por um comandante também brasileiro identificado como Leanderson Paulino. O caso trouxe à tona denúncias sobre abusos internos nas unidades estrangeiras, incluindo relatos de coerção, retenção de documentos e controle violento dos combatentes.

Em maio de 2026, o programa Domingo Espetacular, da Record, exibiu entrevistas com ex-integrantes do tráfico de drogas do Rio de Janeiro que trocaram a atuação em facções pela guerra no Leste Europeu.

Identificados pelos codinomes “G-S”, “Mestre” e “Predador”, eles relataram ter visto no conflito uma possibilidade de fuga da violência cotidiana das comunidades cariocas, além da promessa de dinheiro, estabilidade e uma nova vida fora do Brasil.

Nesse contexto, símbolos culturais brasileiros passaram a desempenhar um papel inesperado no processo de recrutamento. Em abril de 2026, combatentes apareceram posando com a bandeira da Torcida Jovem do Flamengo. Esse tipo de foto é uma propaganda voltados para brasileiros que acreditam na violência das campanhas de mercenário como uma saída.

O uso desses elementos funciona como uma espécie de ponte emocional, aproximando a guerra de universos familiares ligados ao futebol, à masculinidade, a violência e ao pertencimento coletivo das torcidas organizadas, que também acontece nos exércitos.

Grande parte do recrutamento ocorre por meio de campanhas online e plataformas como o site joinuarmy.org, que possui páginas direcionadas especificamente ao público brasileiro. A propaganda enfatiza ideias como “defesa da liberdade” e “missão internacional”, frequentemente omitindo as condições reais do conflito. Os contratos oferecidos costumam durar seis meses e prometem salários entre R$ 7 mil e R$ 8 mil mensais, além de alojamento e alimentação.

No entanto, os relatos de quem esteve no fronte descrevem uma realidade completamente diferente da narrativa heroica divulgada nas redes. Soldados brasileiros afirmam que os drones se tornaram a principal ameaça da guerra, tornando o conflito mais letal do que qualquer experiência de violência urbana conhecida por eles no Brasil.

Muitos descrevem o fronte como um “verdadeiro inferno”, marcado por ataques constantes, mortes rápidas e sensação permanente de abandono.

A participação de brasileiros em conflitos estrangeiros permanece em uma zona jurídica ambígua. Embora o alistamento ocorra formalmente de maneira voluntária, organismos internacionais como a ONU alertam para os riscos do mercenarismo e defendem a criminalização dessas práticas por comprometerem a proteção da vida humana.

Nesse cenário, o Brasil aparece menos como um ator político do conflito e mais como fornecedor periférico de combatentes para uma disputa estratégica travada entre potências. Ou seja, enquanto país estamos falhando em proteger as peças mais frágeis do tabuleiro.

O crescimento desse fluxo de mercenários revela a fragilidades internas da sociedade brasileira que já possui na sua jurisprudência o entendimento contrário a autodestruição, contudo ainda permite o alistamento em um exército estrangeiro.

Jovens em busca de pertencimento, renda, reconhecimento ou simplesmente organizar seu desejo pela violência, acabam sendo incorporados a uma engrenagem militar transnacional que transforma vulnerabilidade social em corpos descartáveis para a guerra. Porque sem dúvida nenhuma o valor da vida do soldado nacional e do mercenário brasileiros são distintos.

Diario do Centro do Mundo
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