“Tribalismo masculino”, “movimento” que invadiu o Capitólio, está mais perto do que você imagina. Por Nathalí

Jake Angelli na invasão do Capitólio. Foto: Win McNamee/Getty Images

Por Nathalí Macedo

Imagine um movimento pior e mais nocivo que o fundamentalismo religioso – até então o grande inimigo das minorias -, surgido literalmente da deep web, baseado na supremacia masculina e branca, com ideais radicais e violentos e uma estética no mínimo duvidosa.

Este é o “masculinismo” ou “tribalismo masculino”, movimento ideológico por trás das figuras pitorescas com chifres e caras pintadas que invadiram o Congresso dos EUA.

Um produto caricatural – talvez o mais extremo, mas também o mais adequado aos terríveis sintomas do nosso tempo.

Um artigo da BBC Brasil assinado por Ricardo Senra convida a antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado, professora da Universidade de Bath, no Reino Unido, pra dar conta de explicar de onde afinal surgiu essa gente:

A vestimenta tribal é um elogio aos primórdios da humanidade, um ode à barbárie, uma indumentária saudosista dos tempos em que não existiam direitos humanos, igualdade, acordos de cooperação.

O ídolo dos masculinistas é o americano Jack Donovan, que defende a “devoção à estética masculina” – razão pela qual embora contraditoriamente mantenham relações sexuais com outros homens, os masculinistas não se consideram gays e manifestam ódio à cultura LGBTQ.

Um movimento contraditório, extremo, radical e ao mesmo tempo infantilóide, ridículo e esteticamente prejudicado: uma verdadeira aberração em todas as esferas possíveis e imagináveis.

O principal e mais preocupante na existência de um grupo de supremacia masculina, entretanto e é claro, é o fato de estar estruturalmente ancorado no ódio às mulheres, como ressalta Rosana Pinheiro-Machado:

“O princípio dos grupos tribalistas masculinos, ou masculinistas, é primeiro um ódio às mulheres, uma ideia de que as mulheres são objetos para reprodução humana simplesmente. Muitos dos grupos masculinistas norte-americanos defendem que as mulheres têm que ser caçadas, literalmente, e que nós só servimos para reprodução”, explica a antropóloga.

Embora o movimento masculinista pareça ter saído de um buraco no espaço-tempo do mundo invertido e seja patético demais pra ser levado a sério, os efeitos de sua existência – e de seus tentáculos no mundo inteiro – são preocupantes.

As consequências imediatas, esclarece Rosana, são o aumento do feminicídio e a perseguição a estudiosos e pesquisadores em gênero, que já vem acontecendo no Brasil: citamos os exemplos de Lola Aronovich, pioneira blogueira feminista e professora da Universidade Federal de Fortaleza, e Debora Diniz (das universidades de Brasilia e Brown, nos EUA), ambas vítimas de constantes ataques e ameaças online vindas de grupos radicais identificados com masculinistas brasileiros.

Sim, eles estão mais perto do que imaginamos.

Não usam vestimenta tribal (ainda), mas se proliferam na internet blogs, fóruns e páginas em redes sociais dedicadas ao tema. No Facebook, um dos destaques é a fanpage “Masculinismo Brasil – Por um Brasil Mais Justo com os Direitos dos Homens”.

Por aqui, influenciado por figuras americanas pitorescas como o o designer americano Aoirthoir An Broc, fundador da International Association of Masculinists (Associação Internacional dos Masculinistas, em tradução do inglês), o masculinismo à brasileira surge como resposta à crescente onda feminista e apega-se à ideia nociva e milenar de que as mulheres são a raiz de toda a desgraça do mundo, o chamado mito da mulher perversa.

“O mal, o pecado, a guerra, a violência, o estupro, o roubo e a corrupção têm origem no ginocentrismo. Ao difundir o masculinismo e a misoginia, os homens percebem que são todos irmãos. As mulheres já demonstraram que não são de confiança”, diz.

Explicar a existência – sem embargos, é bom dizer – de um grupo misógino organizado e mundialmente difundido é uma tarefa dificílima até mesmo para os antropólogos e sociólogos, mas de uma coisa se pode ter certeza: essa aberração está diretamente ligada à resposta recente – precisamente nas últimas quatro décadas – das minorias diante de opressões milenares, sobretudo às mulheres.

Não se trata, indiscutivelmente, de um movimento isolado: o masculinismo é a caricatura extrema e radical de valores e comportamentos que se manifestam em todas as esferas das sociedades, ouso dizer – embora em graus e circunstâncias diferentes – do mundo inteiro.

A necessidade exacerbada de manifestação de masculinidade, o ódio às feministas – o medo dos homens das mulheres sem medo -, a institucionalização da misoginia, o insistente e ultrapassado arquétipo do macho alfa, tudo isso é sintoma e remonta aos mesmos valores e ideias em que estão alicerçados os masculinistas, com ou sem chifres e roupas tribais.

O adoecimento do masculino nunca foi tão óbvio. Mas, se falamos de masculinidade tóxica, somos feministas demais, mimizentas, desconectadas da realidade, chatas pra cacete.

A verdade entretanto é que a perseguição às minorias e a resposta radical e violenta a um movimento de igualdade genuíno que se manifesta no mundo atinge agora um ápice radical e um momento decisivo em que o feminismo enquanto movimento político nunca foi tão necessário.

O surgimento de ideologias como o “masculinismo” é um aviso mais do que luminoso para nós, mulheres: a organização política de nossos movimentos feministas é uma urgência.

Nossas cabeças estão no centro dos principais acontecimentos históricos do século, a perseguição às minorias se multiplica e se renova, e não a alternativa além de lutar.

Quanto aos vikings saudosistas – sobretudo os tupiniquins – cabe apenas a lata de lixo da história.

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