Trocas nos ministérios indicam fortalecimento de núcleo bolsonarista no governo. Por Rafael Tatemoto

Solenidade de Passagem de Comando da Aeronáutica Foto: Marcos Corrêa/PR

PUBLICADO NO BRASIL DE FATO

POR RAFAEL TATEMOTO

As recentes trocas ministeriais feitas por Jair Bolsonaro (PSL) indicam um momento ambíguo de seu governo: enquanto sua popularidade é desgastada, sua influência dentro do próprio Executivo se amplia. Essa é a avaliação de cientistas políticos ouvidos pelo Brasil de Fato.

Duas mudanças – a ida do general Luiz Eduardo Ramos para a Secretaria de Governo e a do major da Polícia Militar Jorge de Oliveira Francisco para a Secretaria Geral – são exemplos dessa mudança. Ambos são extremamente próximos ao pensamento de Bolsonaro.

Ressaltando não ser especialista na política interna das Forças Armadas, o professor de Ciência Política da UnB Luís Felipe Miguel, ressalta o histórico de proximidade pessoal entre Oliveira e a família Bolsonaro. O policial foi, por exemplo, assessor do presidente quando este era parlamentar.

“00:35 Existe um movimento bem claro de afirmação do poder do Bolsonaro entre os grupos que chegaram ao governo nas eleições. 01:04 O Bolsonaro trocou militares por pessoas próximas a ele.  02:41 A gente está vendo um governo em que as forças dos militares ‘mais instucionais’ estão perdendo espaço para os militares mais ‘bolsonaristas’ mesmo”, diz.

Miguel ressalta a permanência de Augusto Heleno na Esplanada dos Ministérios. Em sua visão, se trata do quadro da reserva que compunha originalmente o governo que é mais próximo a Bolsonaro.

Rodrigo Lentz, doutorando em Ciência Política que estuda o pensamento militar brasileiro vê na chegada de Ramos um ponto de inflexão: se trata do primeiro militar vindo da ativa a ocupar um ministério no governo.

“00:48 A entrada do Ramos, embora há várias questões de proximidade pessoal entre ele e Bolsonaro, aponta para uma nova etapa: a entrada dos quartéis na política. O Ramos era um comandante da ativa, comandava uma tropa super importante do ponto de vista militar”, explica.

Em sua visão, ainda que impere uma “falta de informação sobre a conjuntura interna” das Forças Armadas, é possível aventar que Bolsonaro busca influir na dinâmica dos militares. Existiria, segundo ele, uma movimentação de Bolsonaro em relação ao Exército de consolidar o suporte político entre as tropas, “aprofundando suas relações com os quartéis”.

Outras alas

Para Luis Felipe Miguel, o enfraquecimento dos militares menos alinhados a Bolsonaro tem impacto em outros setores do governo. A equipe econômica, por exemplo, tinha o respaldo da ala militar mais distante do bolsonarismo, adepta do liberalismo econômico.

De acordo ele, o presidente tem uma “adesão de circunstância” ao programa ultra-liberal e “quanto mais Bolsonaro se fortalece, mais esse projeto fica na dependência da vontade dele”.

Um indício disso seria o fato de que a articulação para aprovação da reforma da Previdência tem pouco apoio presidencial, sendo mais protagonizada pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM).

Em outra área, Bolsonaro segue se fortalecendo. Se antes Sergio Moro (Justiça) trazia legitimidade ao govenro, hoje a relação tem se invertido: “Moro está cada vez mais dependente [de Bolsonaro] e tudo indica que vai se enfraquecer cada vez mais”, diz Miguel, em referência ao escândalo das mensagens reveladas pelo site The Intercept Brasil.

Mais uma vez, mesmo que o desgaste do ex-magistrado prejudique o governo em geral, favorece ao presidente do ponto de vista interno.

Dança das cadeiras

Quatro ministérios já sofreram alterações por conta de embates governamentais.

O primeiro a cair foi Ricardo Velez, alvo de críticas dos militares da reserva. Em seu lugar assumiu Abraham Weintraub. Em seguida, Gustavo Bebbiano (PSL) caiu em meio ao escândalo dos laranjas do partido presidencial.

O ponto definitivo, entretanto, provavelmente foi uma desavença do ex-ministro com um dos filhos do presidente, já que outro ministro está envolvido no suposto esquema e permanece na Esplanada.

No lugar de Bebbiano, o general da reserva Floriano Peixoto assumiu a Secretaria Geral. Recentemente, entretanto foi “rebaixado” para a presidência dos Correios, sendo substituído pelo já citado major da PM do Distrito Federal Jorge de Oliveira Franscisco.

Outro embate resultou na saída do general da reserva Alberto dos Santos Cruz da Secretaria de Governo. O ponto final para sua permanência foi sua divergência com bolsonaristas sobre a distribuição de verbas publicitárias para meios de comunicação. Para ocupar a vaga, foi chamado o general da ativa Luiz Eduardo Ramos.

Edição: Rodrigo Chagas

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