
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou iniciar uma guerra tarifária contra países que vendem petróleo a Cuba ao assinar, nesta quinta-feira (29), uma ordem executiva que autoriza a imposição de tarifas comerciais contra esses parceiros.
A medida é justificada pela Casa Branca como necessária para a “segurança nacional”, mas foi classificada pelo governo cubano como um “ato brutal de agressão”.
A decisão amplia a pressão sobre Havana em um momento de forte crise energética. Cuba hoje não consegue suprir sequer metade de suas necessidades de eletricidade e enfrenta escassez de combustível há pelo menos três anos, sob o embargo imposto pelos Estados Unidos desde 1962.
Segundo o texto divulgado pela Casa Branca, a ordem executiva responde a uma “emergência nacional” e autoriza o governo americano a iniciar “um processo para impor tarifas às mercadorias de países que vendem ou, de outra forma, fornecem petróleo para Cuba, protegendo, assim, a segurança nacional e a política externa dos Estados Unidos”.
O documento não especifica quais países podem ser afetados nem estabelece o percentual das tarifas. A Casa Branca afirma apenas que “poderá ser imposta uma tarifa adicional ad valorem (de acordo com o valor) sobre as importações de bens que sejam produtos de um país estrangeiro que venda ou forneça, direta ou indiretamente, qualquer tipo de petróleo a Cuba”.
A ordem prevê ainda que o presidente poderá rever a decisão “se Cuba ou os países afetados adotarem passos significativos para enfrentar a ameaça ou se alinharem aos objetivos de segurança nacional e política externa dos Estados Unidos”.
Reação do governo cubano
Na noite de quinta-feira, Havana reagiu com dureza. O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, classificou a medida como um ataque direto ao país.
“Denunciamos ao mundo este ato brutal de agressão contra Cuba e seu povo, que há mais de 65 anos são submetidos ao mais prolongado e cruel bloqueio econômico jamais aplicado contra uma nação inteira”, escreveu Rodríguez no X.
Segundo o ministro, a ordem executiva contém “uma longa lista de mentiras que pretendem apresentar Cuba como uma ameaça que não é”.
Condenamos en los términos más firmes la nueva escalada de #EEUU contra #Cuba.
Ahora se propone imponer un bloqueo total a los suministros de combustible a nuestro país.
Para justificarlo, se apoya en una larga lista de mentiras que pretenden presentar a Cuba como una amenaza…
— Bruno Rodríguez P (@BrunoRguezP) January 30, 2026
Acusações
A Casa Branca voltou a reiterar críticas históricas ao governo cubano, acusando Havana de “alinhar-se e apoiar vários países, organizações terroristas internacionais e atores hostis aos Estados Unidos”, citando Rússia, China, Irã, Hamas e Hezbollah.
O texto também acusa Cuba de “desestabilizar a região por meio da imigração e da violência” e de “propagar suas ideias, seus programas e suas práticas comunistas”.
Após a operação militar que resultou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, Trump já havia advertido que Cuba deveria negociar “antes que seja tarde demais”. Com a mudança no controle do setor petrolífero da Venezuela, Washington passou a ter influência direta sobre uma das principais fontes de abastecimento energético da ilha.
A ameaça tarifária ocorre em um momento delicado para Cuba. Além da perda do fornecimento venezuelano, a ilha depende atualmente do petróleo enviado pelo México. Entre janeiro e setembro do ano passado, a estatal mexicana Pemex exportou para Cuba 17.200 barris diários de petróleo bruto e 2.000 barris de derivados, totalizando cerca de US$ 400 milhões, segundo dados oficiais.
Mesmo diante da nova ordem executiva dos Estados Unidos, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, reiterou na quinta-feira que seu governo continuará sendo “solidário” com Cuba.
Crueldade
O episódio expõe um Estados Unidos encurralado diante das transformações do século, que troca diplomacia por coerção e tenta impor vontade pela via mais baixa. Ao recorrer à violência econômica, ao achaque comercial e à intimidação de terceiros para sufocar um país já castigado por décadas de bloqueio, Washington revela menos força do que medo de perder centralidade. Trata-se de uma política externa que normaliza o castigo coletivo, despreza o direito internacional e instrumentaliza a miséria como método. A autodeterminação dos povos não é barganha nem ameaça velada, é princípio a ser respeitado, e violá-lo dessa forma corrói qualquer pretensão de liderança moral.