“Trump caminha rumo à ditadura”, diz o mais confiável observatório global da democracia

Atualizado em 17 de março de 2026 às 9:46
Donald Trump

O Instituto Varieties of Democracy (V-Dem), sediado na Universidade de Gotemburgo, Suécia, chega a uma conclusão alarmante: os EUA avançam rapidamente em direção à autocracia, em ritmo mais acelerado que o observado em experiências recentes como Hungria e Turquia.

Uma das referências mais respeitadas na análise da saúde das democracias globais, o V-Dem revela que, pela primeira vez, os EUA perderam o status de democracia liberal, um retrocesso sem precedentes na história do país.

“Nossos dados sobre os Estados Unidos remontam a 1789. O que estamos vendo agora é o mais grave retrocesso democrático que já registramos”, afirmou Staffan Lindberg, fundador do instituto.

A análise é clara: a concentração de poder no Executivo, a erosão dos direitos civis e a destruição dos mecanismos de controle sobre o poder são sinais de um processo acelerado de autocratização, no qual Donald Trump desempenha papel central.

Em comparação com países como Hungria, Turquia e Sérvia, que já viveram processos semelhantes, os EUA estão experimentando uma mudança radical em um tempo muito mais curto. “Na Hungria de Viktor Orbán, esse processo levou quatro anos; na Turquia de Recep Tayyip Erdoğan, oito; na Sérvia de Aleksandar Vučić, cerca de dez. Trump conseguiu alcançar um grau equivalente de erosão democrática em apenas um ano”, observou Lindberg.

A velocidade com que o presidente dos EUA enfraqueceu as instituições e concentraram o poder na presidência é algo que não tem paralelo na história recente.

O V-Dem também destaca que, desde 1965, a democracia nos Estados Unidos nunca esteve tão debilitada. Em um ano, Trump desmantelou organismos essenciais, como os inspetores-gerais e outros altos funcionários de carreira, substituindo-os por aliados pessoais.

As ações do presidente levaram a um enfraquecimento do Congresso, com a redução de sua capacidade de exercer controle sobre o Executivo, e à violação sistemática dos direitos civis, especialmente os direitos eleitorais, que começaram a ser fortemente atacados, com aproximadamente 40% dos trabalhadores eleitorais deixando suas funções desde 2020.

Além disso, a recusa de Trump em reconhecer sua derrota nas eleições de 2020 e o contínuo ataque às instituições democráticas fazem com que o país caminhe para um colapso total da democracia, algo que parece iminente caso o atual presidente não seja desafiado de maneira contundente.

O impacto desse retrocesso democrático dos Estados Unidos vai além das fronteiras nacionais, com repercussões no cenário global. Em 2025, a queda no Índice de Democracia Liberal (LDI) foi mais acentuada na América do Norte e Europa Ocidental, com países como os EUA, Reino Unido e Itália vivenciando uma erosão das liberdades políticas e das instituições democráticas.

O relatório do V-Dem aponta que, para além da desestabilização interna, os EUA também influenciam negativamente outras nações, criando um ambiente propício ao crescimento de governos autoritários.

Em relação à América Latina, a situação não é muito diferente. Enquanto o Brasil apresentou uma melhoria no índice de democracia em 2023, países como Argentina e Peru estão enfrentando processos de autocratização, revertendo avanços anteriores.

Gráfico mostrando a falência dos índices da democracia nos EUA, seungo o V-Dem

Esses retrocessos demonstram que o enfraquecimento das democracias ocidentais não é um fenômeno isolado, mas sim parte de um movimento global.

O relatório do V-Dem deixa claro que a democracia está em declínio em grande parte do mundo, com uma crescente onda de autocratização que atinge, particularmente, as potências ocidentais. O impacto desse processo é evidente tanto nos EUA quanto na Europa, onde países como o Reino Unido e a Itália começam a caminhar para regimes cada vez mais autoritários.

O desafio agora é entender até que ponto esse retrocesso pode ser contido e qual será o futuro das democracias liberais, caso o modelo de autocracia continue se expandindo.

Para medir a qualidade democrática, os pesquisadores utilizam 48 indicadores, que incluem liberdade de expressão e de imprensa, integridade eleitoral e respeito ao Estado de Direito. O chamado “índice de democracia liberal” revela que a velocidade do desmonte institucional nos Estados Unidos é inédita na história recente. O principal motor desse processo, segundo Lindberg, é a “concentração rápida e agressiva de poder na presidência”.

O Congresso nos EUA foi progressivamente esvaziado, prejudicando o sistema de freios e contrapesos — ou seja, os mecanismos de controle legislativo e judicial sobre o Executivo. Simultaneamente, os direitos civis foram sendo restringidos, e a liberdade de expressão atingiu seu ponto mais baixo desde a década de 1940.

“Estamos testemunhando uma concentração extremamente rápida de poder no Executivo. O Legislativo, na prática, abdicou de suas prerrogativas em favor do presidente, deixando de funcionar como uma instância de contenção”, afirma Lindberg.

No primeiro ano de governo, Donald Trump assinou 225 decretos executivos, enquanto o Congresso, sob controle republicano, aprovou apenas 49 leis. “A maioria desses decretos teve impacto substancial: órgãos inteiros foram desmantelados, com a demissão de centenas de milhares de servidores. Já as leis aprovadas pelo Congresso se limitaram, em grande parte, a ajustes marginais em normas já existentes. Na prática, deixou de haver uma divisão efetiva entre os poderes Legislativo e Executivo”, explica.

A Suprema Corte, por sua vez, também parece ter se afastado de sua função de contrapeso. Mesmo quando invalida medidas do Executivo, essas frequentemente são contornadas por iniciativas subsequentes. Atualmente, mais de 600 ações judiciais tramitam contra o governo.

Seria um erro acreditar que a Europa está imune a essas tendências, independentemente do que aconteça em Washington. “É um fenômeno global. As evidências mostram que, uma vez no poder, movimentos de extrema direita tendem a desmantelar instituições democráticas”, afirma.

Em vários países europeus, eleitores estão se mobilizando para eleger líderes com perfis semelhantes ao de Trump, apesar dos riscos evidentes. Simultaneamente, setores tradicionais do conservadorismo aderem a esse movimento, acreditando — de maneira otimista, mas improvável — que, desta vez, os resultados serão diferentes dos observados em regimes autoritários anteriores.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.