Trump escala defensor da Doutrina Monroe para comandar relações com o Brasil

Atualizado em 17 de agosto de 2026 às 23:08
Trump Juan Pablo Segura
O novo secretário assistente de questões no hemisfério ocidental, Juan Pablo Segura. Foto: Divulgação/Departamento de Estado dos EUA

Donald Trump colocou no comando da área do Departamento de Estado responsável pelo Brasil e pelo restante da América Latina um defensor declarado da retomada da Doutrina Monroe. Juan Pablo Segura tomou posse na sexta-feira (14) como secretário-assistente de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, cargo que dirige a diplomacia estadunidense para a região. Em sua primeira manifestação, afirmou que trabalhará ao lado de Trump e do secretário de Estado, Marco Rubio, para avançar a agenda do governo contra cartéis e grupos classificados por Washington como narcoterroristas.

A posição de Segura sobre o papel dos Estados Unidos nas Américas está registrada desde sua sabatina no Senado, em 18 de junho. No discurso preparado para os parlamentares, ele afirmou que a Estratégia de Segurança Nacional de Trump prevê retomar a Doutrina Monroe para “restaurar a preeminência americana” no Hemisfério Ocidental e reduzir a influência de adversários externos. Também citou como prioridades o combate a organizações narcoterroristas, o controle de infraestrutura crítica e iniciativas regionais voltadas a cartéis e minerais estratégicos.

A China ocupa lugar central nessa visão. Ao ser questionado sobre a expansão de Pequim na América Latina, Segura afirmou que os chineses haviam “se infiltrado” no hemisfério e citou participações em infraestrutura crítica e empréstimos que, segundo ele, poderiam afetar a soberania de países da região. Sua resposta foi defender uma ofensiva de “diplomacia comercial”, com empresas e financiamento estadunidenses disputando projetos de energia, mineração, tecnologia e infraestrutura.

Para o Brasil, o ponto é especialmente sensível: somente em julho, o país exportou US$ 10,67 bilhões para a China e importou US$ 6,42 bilhões, segundo dados oficiais do governo brasileiro.

Em outro momento da sabatina, o senador republicano Ted Cruz perguntou diretamente a Segura se o compromisso de Trump de eliminar cartéis poderia incluir uso de força militar. O então indicado não endossou explicitamente uma intervenção armada, mas também não excluiu a hipótese: respondeu que a classificação dessas organizações como terroristas ampliava o arsenal disponível e afirmou que os EUA deveriam usar “todos os instrumentos disponíveis” contra elas.

Poucas semanas antes, Washington havia classificado o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras, decisão que entrou em vigor em 5 de junho e foi criticada pelo governo brasileiro.

Segura chega ao posto quando a relação entre Brasília e Washington atravessa uma sequência de confrontos. Em julho, o governo Trump impôs tarifa adicional de 25% sobre grande parte dos produtos brasileiros após uma investigação pela Seção 301 da legislação comercial estadunidense. Outra investigação acrescentou sobretaxa de 12,5% a determinados produtos. O Brasil levou as medidas à Organização Mundial do Comércio e, em agosto, abriu o procedimento previsto na Lei da Reciprocidade Econômica, que inicia uma fase de avaliação e consultas antes de eventuais contramedidas.

A crise chegou também às embaixadas. O Brasil ainda não deu o aval à Daniel Perez, escolhido por Trump para comandar a representação estadunidense em Brasília. Washington anunciou publicamente o nome antes de receber a anuência brasileira, procedimento que irritou o Itamaraty. Em represália à demora e à negativa brasileira de vistos para dois funcionários estadunidenses, o Departamento de Estado cancelou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Lula afirmou que só pretende analisar a indicação de Perez depois da eleição.

Além disso, Segura e Perez foram confirmados pelo Senado estadunidense na mesma votação, em 7 de agosto, por 51 votos a 47. Segura substitui Michael Kozak, diplomata de carreira que comandava interinamente o Bureau de Assuntos do Hemisfério Ocidental havia mais de um ano. O novo titular tem perfil diferente: antes de entrar no Departamento de Estado, foi secretário de Comércio e Negócios da Virgínia, trabalhou como empresário e investidor e já havia concorrido pelo Partido Republicano ao Senado estadual. A própria sabatina mostra que ele pretende aplicar sua experiência econômica à disputa de influência dos EUA com a China na região.

Metadescrição-chave:

Metadescrições alternativas:

  1. Novo chefe da política dos EUA para o Brasil assume em meio à crise com Lula e já defendeu a retomada da Doutrina Monroe no hemisfério.
  2. Juan Pablo Segura disse ao Senado que Washington deve recuperar sua preeminência regional e reduzir a influência chinesa na América Latina.
  3. Segura assume posto estratégico após EUA classificarem PCC e CV como terroristas e em meio a tarifas e atritos diplomáticos com o Brasil.
Laura Jordão
Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política; escrevo pelo Diário do Centro do Mundo!