“Trump fez um ato de guerra e é difícil imaginar que não haverá reação”, diz Celso Amorim. Por Pedro Zambarda

Celso Amorim

O ex-chanceler brasileiro e ex-ministro da Defesa de Lula e Dilma, Celso Amorim, foi indicado pela ONU para acompanhar um processo de desarmamento no Iraque e ajudou a expandir o relacionamento comercial com o Irã. “Fizemos isso pela paz e não apenas pelos negócios”, explica.

Na sua avaliação, o assassinato do general Qasem Soleimani é um momento grave por representar o risco de mais violência dentro e fora do Oriente Médio. Soleimani era apontado como a figura mais importante do Irã depois do líder supremo no Iraque, o aiatolá Ali Khamenei.

Amorim comparou este momento com a Crise dos Mísseis entre Cuba e os EUA na Guerra Fria.

Para aprofundar sua análise, o DCM entrevistou Celso Amorim.

Diário do Centro do Mundo: O senhor considerou a crise como “a pior desde a Crise dos Mísseis”. Rússia e China não podem neutralizar uma ação do Irã contra os EUA e vice-versa?

Celso Amorim: Acho ainda que é uma situação complicada. Depende se eles conseguem levar esse assunto ao Conselho de Segurança da ONU. Os Estados Unidos, ainda assim, vão vetar isso. Um pedido de desculpas dos americanos não vai acontecer. Não vejo como mudar algo no curto prazo. Uma ação como essa [assassinar Soleimani] ia acontecer em algum momento.

No entanto, na Crise dos Mísseis que citei, a Guerra Nuclear que estava se armando acabou não acontecendo. Depois de algum momento, as pessoas enxergaram o risco que havia e conversaram.

Eu acho que vão tentar o Conselho de Segurança na ONU. Quem está querendo uma Terceira Guerra Mundial? Mesmo com essas dúvidas, a situação é de risco de altíssimo nível por diferentes motivos. O Irã teve o programa nuclear que Israel sempre enxergou como uma ameaça direta a eles. Imagino que forças de segurança israelenses enxerguem até uma oportunidade nessa situação. Uma oportunidade para haver de fato um ataque ao Irã.  

As declarações de autoridades iranianas foram muito fortes. O fato foi forte e é um assassinato. A morte de Muammar Kadafi na Líbia, por exemplo, também foi expressivo, mas isso aconteceu no meio de um combate. Saddam também.

Matar uma pessoas dessa forma é inédito nos últimos anos.

Isso acontecia nas mãos de terroristas, mas não de um Estado organizado. Na Primeira Guerra Mundial teve um assassinato assim.

DCM: Do arquiduque Francisco Ferdinando, né?

CA: Sim, o arquiduque da Áustria. A pessoa que o matou naquela época seria classificada como terrorista. No caso atual, temos um Estado que fez um ataque. Esse ataque não foi contra uma pessoa como o Bin Laden, digamos, acusada previamente de cometer terrorismo e que assumiu seu envolvimento. O que aconteceu não foi como os ataques de drones ao Iêmen.

Esse foi um ataque a uma figura importantíssima do Estado iraniano e que foi assumida pelo Trump, aparentemente, e pelo Pentágono…

DCM: Ele assumiu. Está postado no Twitter do Trump que ‘Soleimani matou milhares. Mas foi pego’.

CA: Pois é. Trump fez um ato de guerra de uma guerra ainda não declarada. Muito difícil pensar que não vai haver uma reação. Muito difícil.

Não estou justificando uma reação, nem desejando que ela aconteça. Conhecendo o que sei sobre o relacionamento entre os países, acho muito difícil que nada aconteça. Ainda mais depois do que foi falado. O Líder Supremo no Irã [Ali Khamenei] não se manifesta normalmente. Ele fala muito pouco. E se expressou de forma muito forte. Falou em “vingança”. “Vamos vingar”.

É uma situação de enorme perigo. Grande risco.

O Irã não poderá fazer um ataque frontal aos Estados Unidos. Eles vão fazer alguma coisa que não resulte numa guerra total. Numa guerra total, o Irã pode ser aniquilado. Não sei exatamente o que aconteceria, mas o poderio americano é indiscutivelmente maior. Mas eles vão fazer alguma coisa que ataque pontos vulneráveis, que vão gerar novas reações.

Em algum momento vão convocar o Conselho de Segurança da ONU. Devem fazer alguma declaração sobre o que aconteceu. E, no meio do caminho, Israel pode tentar atacar as instalações nucleares do Irã. Eles já fizeram isso no passado com o Iraque, caso parecido. Pode acontecer também revezes para os americanos, como o Hezbollah atacar os próprios israelenses.

No detalhe eu não sei exatamente o que vai acontecer. E minha maior preocupação, sem dúvida, é com o que vai acontecer com o Brasil. Não sabemos o que pode acontecer. Você pode sair apoiando isso?

Não vi ninguém apoiando até agora…

DCM: A única declaração do Jair Bolsonaro foi sobre preço de petróleo, que pode aumentar, até o momento. Ele pode manter algum silêncio sobre isso?

CA: Silêncio é impossível. Talvez uma neutralidade, embora o Bolsonaro seja difícil de se prever.

Ele pode falar algo na linha de que estamos muito preocupados, apelamos às partes para que exista moderação e que alguns países europeus podem adotar. Nessas situações, quando você não sabe o que fazer, olha o secretário-geral da ONU. Ele, pelo menos, é um ponto de referência. Muitos países devem condenar o Irã e o condenarão sempre. Mas não vejo como o Bolsonaro possa fazer isso.

O melhor que podemos esperar do Bolsonaro é uma atitude como descrevi. É muito arriscado agora o impulso que ele teve nos últimos meses por apoio dos Estados Unidos. Guerra econômica atualmente já existe, mas interessa ao Brasil encerrar as exportações para o Irã?

É preciso ter cuidado com as reações que declarações podem sim despertar.

DCM: Considerando seu trabalho como chanceler, que aproximou o Brasil do Irã, nós já perdemos muito com a diplomacia do governo Bolsonaro?

CA: Sim, ele colocou esse relacionamento em risco. E, veja bem, não era uma aproximação com o Irã por simpatia. E não era só por interesses comerciais.

O Brasil atuou pela paz ao se aproximar do Irã.

Trabalhamos pelo acordo em torno do programa nuclear iraniano, inclusive a pedido do Obama. Fizemos isso, o então presidente Barack Obama recuou e depois acabou fazendo algo muito parecido com o que tínhamos proposto com a Turquia. O interesse naquela ocasião era atuar pela paz e, claramente, para melhorar o nosso comércio exterior.

Até me surpreendi com as cifras que li recentemente.

DCM: Por quê?

CA: Naquela época exportávamos algo em torno de US$ 1 bilhão para o Irã. Hoje já passou cifras de US$ 3 bilhões. Ou seja, cresceu mesmo sem que a gente mexesse nisso. Foi se desenvolvendo. Se, neste momento, o Brasil adotar uma postura para aceitar uma execução sumária, o que é grave no mundo, isso pode trazer consequências.

O militar que foi assassinado não foi julgado. Não há provas contra ele. Não havia uma ação imediata que ele pudesse causar. Não vou entrar no mérito do que ele fez ou deixou de fazer, mas é muito difícil defender o que foi feito.

Acontece algo no país e você, com aparato do Estado, vai lá e mata o chefe daquele país?

Se o Brasil adotar uma postura de condescendência com a postura americana, isso terá consequências no plano comercial de forma negativa para nós.

Num caso como esse, é necessária coragem para agir no Conselho de Segurança da ONU. O Brasil não está lá e, de certa forma, é até uma sorte que nosso país não se encontre por lá.

Bolsonaro precisa seguir o que o secretário-geral da ONU fizer.

DCM: Até para ele não agir de forma arbitrária, não é?

CA: Sim. Para que ele não invente uma nova reação. Se ele agir de outra forma, pode atrair problemas comerciais e até de segurança.

Se o Irã for retaliar, quais serão os alvos?

Eu acho que o Irã vai retaliar. Por isso não acredito que farão um 11 de Setembro, como o que aconteceu no World Trade Center. O Irã pode atacar aliados frágeis dos EUA. Locais onde tropas americanas estão paradas ou sendo transportadas são alvos potenciais. Fechar o Estreito de Ormuz, afetando o preço do petróleo, é outra forma de ataque possível dos iranianos.

DCM: Esse assassinato pode afetar a eleição americana? Trump pode não ser eleito? Vai ser eleito?

CA: Depende de como a coisa evoluir.

Se isso se arrastar e obrigar os Estados Unidos de Trump a fazer o contrário do que propôs no começo de governo e colocar mais militares no Oriente Médio, pode existir uma repercussão negativa com o Exército americano sob ataque. A expectativa de Trump com essa ação, me parece, era gerar uma reação localizada do Irã e que pare aí.

Caso isso aconteça, ele pode defender o discurso “eu sou o verdadeiro líder americano” e ter o seu momento de demonstrar sua liderança publicamente. Se não for pontual, ele pode se desgastar.

Antes da morte do militar iraniano, Donald Trump tinha tomado medidas para retirar as tropas do Oriente Médio. O que ele fez agora é inédito. Essa ação talvez se esgote em si mesma na cabeça dele.

Ele pode ter cometido um erro estratégico e vai ser obrigado a colocar mais militares no Oriente Médio. Isso pode ter um impacto negativo na eleição também. Trump pode perder a eleição.

Política é como meteorologia. Você observa e tira conclusões, mas isso pode mudar.

Isso que aconteceu com o Irã dentro do Iraque é inédito. A Guerra do Iraque também foi brutal, mas aconteceu num ambiente em que já aconteciam sanções, com os Estados Unidos e a Inglaterra ignorando a carta de recomendação da ONU. Agora não é assim. É uma ação de guerra direta, de um país contra outro, sem ação do Conselho de Segurança da ONU e de outras instituições. É um ato de guerra sem declaração de guerra.

DCM: Com a desculpa da invasão da embaixada americana no Iraque…

CA: Mas cadê a prova para assassinar o militar? Trump quis agir diretamente para gerar uma reação vigorosa. Isso pode ter consequências graves.

DCM: A ONU pode se fortalecer ao tentar intermediar algum diálogo?

CA: Acho muito difícil essa possibilidade (risos). Muito difícil algo de diferente acontecer, a não ser os Estados Unidos vetarem uma ação do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

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