“Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país”, diz Lula

Atualizado em 16 de abril de 2026 às 12:05
Donald Trump e Lula. Foto: Ricardo Stuckert

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou Donald Trump e afirmou que líderes mundiais precisam governar com base no respeito, e não na intimidação. Em entrevista ao jornal espanhol El País, concedida no Palácio do Planalto, em Brasília, o petista acusou o presidente dos Estados Unidos de agir fora dos limites de sua função ao transformar ameaças em instrumento de política internacional.

A conversa foi publicada nesta quinta-feira (16) e ocorreu às vésperas da viagem de Lula à Espanha para uma agenda com Pedro Sánchez e participação no Fórum Democracia Sempre. Na entrevista, Lula fez um ataque direto à postura de Trump diante da escalada de tensão no Oriente Médio e da guerra envolvendo o Irã, afirmando que “uma terceira guerra mundial seria uma tragédia”.

“Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país”, disse o presidente brasileiro. “Ele não foi eleito para isso, e sua Constituição não permite.” O petista reforçou que o uso da força como linguagem política agrava crises internacionais e estimula novos conflitos.

“Ninguém tem o direito de amedrontar os outros”, acrescentou Lula. “É essencial que os poderosos assumam maior responsabilidade na manutenção da paz”.

Lula também afirmou que prefere exercer liderança por meio do diálogo e disse que Trump está “jogando um jogo muito perigoso”. Segundo ele, a lógica adotada pela Casa Branca parte da ideia de que “o poder econômico, militar e tecnológico dos Estados Unidos dita as regras”.

Para o presidente, esse caminho é destrutivo até para os próprios estadunidenses. “Mas não pode ser assim, porque, no fim, isso cria problemas para os próprios Estados Unidos. Quando decidiu atacar o Irã, não sei se percebeu que o preço dos combustíveis subiria e que quem pagaria seria o povo”, declarou, em referência ao impacto do bloqueio do estreito de Hormuz sobre o petróleo.

Ao tratar de sua relação pessoal com Trump, Lula contou que tentou manter uma postura paciente desde o encontro entre os dois nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, no ano passado. “Decidi ter muita paciência e disse a ele, literalmente, que dois países governados por dois homens de 80 anos deveriam conversar com maturidade”, relatou.

O presidente também falou sobre a Venezuela e voltou a defender eleições livres no país, sem interferência externa. Após a captura de Nicolás Maduro em janeiro, Lula criticou qualquer tentativa de tutela de Washington sobre Caracas.

“O que não pode acontecer é os EUA acharem que podem mandar na Venezuela. Isso não é normal; não tem lugar em uma democracia”, afirmou. Sobre a Argentina, disse que “não tem, nem tem interesse em ter” relações com Javier Milei.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.