Tudo pode acontecer na CPMI — mas ainda é cedo para fazer a pipoca. Por Helena Chagas

Atualizado em 25 de abril de 2023 às 7:38
Comissão Parlamentar de Inquérito (Foto: Roque de Sá/Agência Senado | Joédson Alves/Agência Brasil)

Por Helena Chagas

Tudo pode acontecer na CPMI dos atos golpistas — até mesmo nada. Essa última possibilidade não é tão remota assim e está no horizonte de aliados do Planalto que participam das articulações em torno de sua criação, nesta quarta-feira. Vai depender da boa vontade de dois entes: o presidente da Câmara, Arthur Lira, e a mídia. Se Lira atuar para que ao menos quatro das cinco indicações do recém-criado blocão, que tem sua digital, sejam de deputados do PP e do União de perfil governista,  a fatura estará liquidada: o Planalto terá maioria entre os 15 deputados que vão compor a comissão. No Senado, com a perspectiva de ter 10 ou 11 dos 15 senadores, isso já está assegurado.

Essa maioria pode garantir ao governo a eleição do presidente e do relator da CPI, o controle da pauta de convocações para depoimentos e o rumo das investigações. Não por acaso, ministros e líderes governistas já espalharam que vão convocar Jair Bolsonaro, Anderson Torres, general Heleno e outros bolsonaristas que, no mínimo, passariam por grandes constrangimentos ao serem inquiridos pela tropa-de-choque do governo: André Janones, Omar Aziz, Renan Calheiros e outros.

Se a turma do Planalto vai convocá-los mesmo, não se sabe. A simples ameaça, com a perspectiva de ter maioria na comissão, já pode ser suficiente para reduzir o ímpeto da suposta investigação parlamentar dos terraplanistas. Todo mundo sabe, inclusive seus defensores, que a bizarra tese de que as vítimas da tentativa de golpe seriam responsáveis por ela — a fake news da hora para justificar o movimento bolsonarista pró-CPI — não tem condições de prosperar. A intenção sempre foi fazer barulho e pirotecnia — e o inexplicável temor demonstrado inicialmente pelo governo em relação à comissão apenas atiçou os ânimos.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Reprodução)

O governo Lula tem alguma razão para ter medo de uma CPI para investigar atos golpistas dos quais foi claramente a vítima? Racionalmente não. Mas CPI é CPI, e sempre vem alguém lembrar que sabe-se como elas começam, mas não como terminam — frase, aliás, erradamente atribuída a Ulysses Guimarães mas que, na verdade, é de Pedro Simon. Sem contar o fundado receio de que as energias gastas nesse espetáculo acabem por atrasar a votação da pauta governista, essa sim fundamental: arcabouço fiscal e reforma tributária.

Confirmado o acordo político com Lira que dará maioria ao Planalto na CPI — e tornará o presidente da Câmara mais poderoso e mais ávido por espaços no governo — , a questão que se coloca no roteiro é o espetáculo proibido para menores de idade. Se a simples presença de um ministro, como Flavio Dino, em comissões temáticas da Câmara já produziu cenas de baixaria provocadas pela tropa bolsonarista, imagine-se uma CPI.

Como vimos na CPI da Covid, esses duelos são sucesso de público, transmitidos ao vivo e incendiando as redes. É exatamente o que quer a oposição bolsonarista, mesmo sabendo que a chance de a investigação parlamentar mostrar algum elemento a seu favor é zero. Só que os trogloditas não estão preocupados com a realidade, mas com o espetáculo que pode mobilizar os seus nesses tempos bicudos. É possível até que o julgamento de Bolsonaro no TSE dispute audiência com a CPI num certo período.

Se eu fosse vocês, porém, ainda não botaria a pipoca no microondas. Boa parte da mídia, sobretudo as grandes redes, pode não dar bom tratamento a Lula, mas ainda vê com grandes reservas a possibilidade de fortalecer o bolsonarismo e facilitar seu retorno. São razoáveis, portanto, as chances de essa CPI não ter a visibilidade midiática de sua antecessora, a da Covid.

Somando-se a essa circunstância o controle da pauta pelo Planalto, com a ameaça de exposição de Bolsonaro e aliados mais próximos — inclusive com o avanço de investigações sobre financiadores e mentores dos atos golpistas — não é irreal supor que esta CPI pode não dar em nada. Com a devida ressalva de que muita gente já disse isso e se deu mal…

Originalmente publicado em Jornalistas Pela Democracia

Participe de nosso grupo no WhatsApp, clicando neste link

Entre em nosso canal no Telegram, clique neste link
Diario do Centro do Mundo
O Diário do Centro do Mundo (DCM) é um portal brasileiro de jornalismo digital fundado em 2014. O site publica notícias e análises sobre política, economia, cultura, mídia, comportamente -- tudo o que é relevante, no Brasil e no exterior