Da UFF a Berlim: como a vitória de Lula ecoa nos protestos de jovens na Europa

Atualizado em 2 de novembro de 2026 às 20:49
Multidão ocupa uma avenida durante protesto da geração Z na Alemanha
Manifestantes da geração Z nas ruas da Alemanha em 31 de outubro. Foto: Thilo Schmuelgen/Reuters

A reeleição do presidente Lula (PT) tornou-se uma referência de esperança para estudantes brasileiros presentes nos protestos da geração Z na Alemanha. No ato realizado no Portão de Brandemburgo, em Berlim, no sábado (31), a vitória sobre Flávio Bolsonaro (PL) foi lembrada como exemplo de reação à direita.

Com bandeiras do Brasil sobre os ombros, Érico Karman, de 21 anos, e Nicolau Berscheid, de 20, participaram da manifestação na capital alemã e deram depoimentos a Folha de S. Paulo. “No Brasil, foi espetacular o que aconteceu”, disse Érico, estudante de engenharia, ao recordar o resultado de 25 de outubro. “Temos que viver das pequenas vitórias, né?”

Um vídeo divulgado no X nesta segunda-feira (2) mostra uma multidão com bandeiras nas ruas e apresenta as imagens como um registro da mobilização em Berlim. Na publicação, o coletivo associa os atos à defesa da educação e de condições dignas de vida e cita a resistência brasileira entre as inspirações dos manifestantes.

A grande jornada de protestos alemães ocorreu no sábado (31), com atos em mais de 30 cidades. Segundo a Deutsche Welle, a iniciativa Gen Z Regelt convocou manifestações pacíficas por mais recursos para as escolas, medidas contra o alto custo de vida e combate ao aquecimento global.

A mobilização reúne grupos diferentes. Após confrontos registrados em algumas cidades, o ministro do Interior, Alexander Dobrindt, responsabilizou grupos de extrema esquerda pelos distúrbios noturnos. Os organizadores do Gen Z Regelt se distanciaram da violência e defenderam que as reivindicações dos jovens fossem ouvidas.


Da UFF às ruas do país

No Brasil, a sequência de atos estudantis em apoio à reeleição de Lula teve um dos primeiros impulsos na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, em 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno. O Centro Acadêmico Evaristo de Veiga, da Faculdade de Direito, e outras entidades convocaram uma reação organizada ao avanço de Flávio Bolsonaro.

“O abalo e o espanto com o resultado de domingo precisam se transformar em movimento”, dizia a convocação. A defesa da universidade pública, dos direitos e da soberania nacional estava no centro do chamado, que pedia participação dos estudantes nas semanas até o segundo turno.

Nos dias seguintes, a mobilização alcançou outras capitais, entre elas Salvador, Recife, Belém, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Goiânia e Vitória. Centros acadêmicos e diretórios estudantis organizaram iniciativas próprias, enquanto a UNE buscava articular um calendário nacional.

Em 7 de outubro, milhares de estudantes marcharam no centro do Rio, da Candelária à Cinelândia. Os participantes defenderam a expansão da educação pública, a continuidade do Pé-de-Meia e recursos para as instituições de ensino. A UNE vinculou o apoio a Lula à preservação de direitos e de perspectivas para a juventude.

A mobilização depois da vitória

Após a vitória nas urnas, a participação popular recebeu reconhecimento no discurso da comemoração na Avenida Paulista, na madrugada de 26 de outubro. Lula atribuiu o resultado aos eleitores, e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) destacou a mobilização de jovens e idosos. O presidente também pediu que seus apoiadores permanecessem organizados.

A eleição deu à mobilização brasileira uma nova etapa: defender o resultado e manter as cobranças por direitos. A UNE convocou novos atos para o domingo (1º), inicialmente concebidos para celebrar a reeleição. Segundo a presidente da entidade, Bianca Borges, os acontecimentos posteriores à votação levaram à inclusão de protestos contra Flávio Bolsonaro e a interferência dos Estados Unidos.

As mobilizações tiveram convocações em 11 estados e no Distrito Federal e incluíram demandas por orçamento universitário e permanência estudantil. No Rio, a deputada Jandira Feghali (PCdoB) resumiu a repercussão que atribuía à reação brasileira: “Viramos símbolo antifascista no mundo”. Dias depois da vitória de Lula, o entusiasmo dos brasileiros presentes em Berlim deu uma expressão concreta a essa identificação.

Laura Jordão
Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política; escrevo pelo Diário do Centro do Mundo!