Um ano depois, Estadão publica como novidade furo do DCM sobre Pazuello obrigar soldado a puxar carroça

Um ano depois, Estadão publica como novidade furo do DCM sobre Pazuello obrigar soldado a puxar carroça

No dia 16 de maio de 2020, quando o general Eduardo Pazuello acabara de ser nomeado ministro da Saúde, o Diário do Centro do Mundo publicou a seguinte reportagem: “Exclusivo: Pazuello obrigou soldado a puxar carroça no lugar de cavalo em quartel“.

Ela mostrava como o então tenente-coronel Pazuello obrigara um soldado sob seu comando, a título de punição por falta disciplinar, a puxar uma carroça no lugar destinado ao cavalo, em frente a todos seus colegas de farda, que riram e caçoaram da cena.

O episódio gerou um inquérito militar, em que o ex-ministro acabou absolvido, após nenhum de seus subordinados ter confirmado, em juízo, que riu do soldado punido. A Procuradoria-Geral Militar, à época, não viu nada de mais no episódio, nada demais estava acontecendo.

Quem também não viu nada de mais no episódio, não o noticiou, versou nos dias seguintes sobre temas mais importantes, foi o jornal Estado de S.Paulo. A notícia do DCM repercutiu nos órgãos de imprensa independente, em alguns poucos veículos da grande mídia e no Portal Militar, mas não no Estadão.

Mais de um ano depois, neste domingo (30), o jornal deu a seguinte notícia a seus leitores: “Pazuello respondeu a inquérito por obrigar soldado negro a fazer papel de animal”. No “lide”, o primeiro parágrafo da notícia e que contém a essência do que se noticia, pode-se ler:

“Eduardo Pazuello comandava havia quatro meses o quartel do Depósito Central de Munições do Exército, em Paracambi, a 70 km do Rio, quando viu dois soldados passarem em uma carroça. Julgou que estavam velozes demais, que maltratavam o equino, e quis lhes dar uma lição. Mandou parar, desatrelar o animal, e determinou que o recruta Carlos Vítor de Souza Chagas, um jovem negro e evangélico de 19 anos, substituísse o cavalo. O soldado teve de puxar a carroça com o outro soldado em cima, enquanto o quartel assistia à cena, às gargalhadas.”

Pazuello

Como se nota, trata-se da mesma notícia veiculada pelo DCM um ano antes, vendida ao público leitor como se novidade fosse. Manda a boa prática jornalística que, em casos como esse, o veículo informe que não foi ele o autor da apuração do que noticia, e informe o crédito devido.

Mas esta não é a prática comum dos veículos da grande imprensa quando se trata de noticiar algo que tenha sido publicado por um veículo independente. Quem é jornalista, sabe que é assim que funciona.

Eu fui ao Facebook de marcelo Godoy, o autor da reportagem do Estadão, questionar a ausência de crédito. Até a publicação desta reportagem, o debate que se deu estava neste link. 

Se tiver sido apagado, pode ser visto nas imagens abaixo. O jornalista do Estadão afirmou que não haveria crédito a ser dado, porque ele trazia novas informações (muito embora não constassem no lide, a principal parte de sua reportagem), como o fato de o soldado vítima de Pazuello ser negro, e também uma entrevista exclusiva com o ex-militar.

De fato, louva-se o esforço de reportagem do Estadão para avançar no furo do DCM, ainda que só tenha obtido tal avanço mais de um ano após a publicação original.

Mas nada justifica que a história que o jornal conta aos leitores em seu primeiro parágrafo seja como se fosse apuração do jornal, quando, de fato, se tratou de apuração de um outro veículo, que o Estadão prefere simplesmente negar a existência, como prefere, às vezes, negar a existência de uma manifestação levada a campo por fatias da sociedade que o veículo claramente  – ainda que não assumidamente – combate.

Isso eu tentei explicar ao funcionário do Estadão, que, no entanto, considerou que tudo se tratava de mera questão de ego. Me disse que eu estaria “dando chilique”, e que isso “não cai bem em um jornalista”.

Eu respondi:”Não estou preocupado com o que cai bem pra um jornalista, acho mais grave o que não cai bem para um jornal (o desrespeito com os veículos de mídia independente), e que ele repete sempre. Ruim para o país, só queria mostrar essa prática reiterada acontecendo de novo. Obrigado.”

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