Um ano sem o Paulo. Por Kiko Nogueira

O Paulo

Um ano sem o Paulo.

Um ano em que o Brasil conseguiu piorar irremediavelmente.

Um ano sem um dos textos mais lúcidos, corajosos e elegantes do jornalismo nacional.

Um ano sem meu irmão.

Ele iria gostar de saber que o DCM continua firme e forte, combatendo o bom combate, e crescendo.

Foi um longo e sinuoso caminho desde 2013, quando comemorávamos cada pequena vitória em nossa trincheira com telefonemas, emails e zaps em fusos horários abstrusos.

Paulo sonhava com um Brasil escandinavo.

Aos poucos, fomos vencidos pela realidade: como diz a propaganda de Temer, o país voltou 20 anos em 2.

Acho que ele nunca abandonou essa utopia. 

Ainda é um norte para nós. O fato insofismável de que esse horizonte está cada vez mais distante não nos faz desistir dele.

Essa é uma das conversas que não temos mais. Uma delas.

O DCM é hoje um dos maiores sites de notícias do Brasil. Influente, lido, respeitado, amado e odiado.

O edifício está em pé. O Paulo ia ficar feliz com isso.

É fruto do amor ao jornalismo, à democracia e à arte, sustentado por leitores incríveis amealhados nessa trajetória, aos quais jamais serei grato o suficiente.

O trabalho de uma equipe enxuta e altamente competente, encabeçada por Joaquim de Carvalho, Érika Nakamura, Pedro Zambarda, Tiago Tadeu.

É da natureza do jornalismo ser, simultaneamente, perfunctório e histórico.

A maioria dos artigos do Paulo continua atual. Grande parte conteria uma tarja: “Eu avisei”.

Eles serão reunidos aqui no Diário do Centro do Mundo com uma indexação especial.

Eu tenho certeza de que ele iria gostar. 

Assim como ele adoraria saber que os Kinks, dos irmãos Ray e Dave Davies, vão se reunir. Milagres acontecem.

Uma das conversas que não mais teremos. Mais uma. 

“Morremos com os mortos. Eles partem e com eles nos levam. Nascemos com os mortos. Eles retornam e consigo nos trazem”, escreveu T.S. Eliot.

Saudade. Te amo, Fratello.

 

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