“Um Batman mataria todo mundo ali”: a visão dos vizinhos ricos de Paraisópolis num documentário. Por Sacramento

Paraisópolis (Imagem: reprodução YouTube)

Qualquer interpretação sensata a respeito da tragédia em Paraisópolis deve ser feita levando em conta a desigualdade social.

A chaga, mãe e pai de tragédias como a que atingiu o bairro paulistano, é o tema do documentário “Entremundo – Um dia no bairro mais desigual do mundo”, de 2015.

O filme de Thiago B. Mendonça e Renata Jardim mostra o desenrolar de um dia em Paraisópolis e nos bairros nobres ao redor da favela de mais de 100 mil habitantes.

Vários símbolos de contrastes sociais comuns em qualquer cidade grande brasileira estão lá: os sobrados com tijolos expostos e o prédio luxuoso imortalizado na foto de Tuca Vieira. A mulher branca indo ao trabalho a bordo de um Audi e o rapaz negro fazendo a mesma coisa de skate entre vielas cheias de entulho. Crianças de bicicleta na amplitude do condomínio e meninos e meninas descalços se divertindo em vielas.

Uma cena mostra a empregada de uniforme a servir a patroa branca na beira da piscina, em contraste com a sequência no interior da casa pequena com o reboco das paredes expostos.

Cenas bem brasileiras e nem um pouco estranhas a quem tem a mínima noção da nossa realidade.

Por isso mesmo não é este o ponto forte do documentário e sim a cena da reunião do Conselho Comunitário de Segurança do Morumbi, na qual participa o então comandante do 16º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo policiamento na região.

“Nós temos instalado na região da favela de Paraisópolis uma questão social, uma coisa de 50 anos atrás”, diz o militar, enquanto a câmera foca uma mulher loira balançando a cabeça em sinal de discordância.

Em dado momento um homem grisalho afirma que se houvesse um Batman na rua iria matar todo mundo ali. Ele pergunta como os vizinhos poderiam fazer doações de carros blindados ou granadas para a polícia.

Uma moça pergunta por que não colocam o Exército na comunidade.

Outro homem resume bem o pensamento das classes médias e altas sobre comunidades como Paraisópolis.

“Essas pessoas que moram em favela, eles não têm dignidade, coitados. Deveria, sim, ter uma política de não ter mais favela”, diz ele.

“Mas pra onde vai esse povo?”, pergunta uma voz feminina.

“Lindo, adorei esse comentário. Concordo, tem que ajudar essas pessoas, mas não morar no Morumbi”, responde o cidadão de bem.

Os semblantes tensos e as falas execráveis dos moradores na reunião são sinais explícitos de que muitos ali apoiariam uma solução final para Paraisópolis. Algo como despejo em massa ou cerco seguido de massacre.

Neste último caso, a única ressalva seria que os corpos fossem recolhidos rapidamente, para o que cheiro dos cadáveres em decomposição não incomode a rotina abençoada dos cidadãos de bem.

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