Um Brasil menos desigual, porém muito desigual

Estamira 3-Crédito Bárbara Copque
O coeficiente de GINI é uma medição que indica o tamanho da desigualdade econômica de um país, ou seja, o quão distantes estão os mais ricos dos mais pobres. Esse coeficiente varia de 1 a 0 (quanto maior o valor, mais desigual é o país). No Brasil, esse valor era de 0,53 em 1960 e durante o período do governo militar subiu para 0,60, ou seja, o Brasil teve um grande aumento na desigualdade.

Esse índice foi mantido até 1990. Somente a partir daí é que ele começou a reduzir, mas a uma velocidade extremamente lenta. No início do governo FHC, em 1995, o índice estava em 0,59 e no fim do seu governo, em 2002, o coeficiente passou a ser de 0,58. Durante o governo Lula, entre 2003 e 2010, o coeficiente de Gini caiu de 0,58 para 0,53. Ou seja, durante o governo Lula, a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres caiu 3,7X mais rápido do que nos governos Collor e FHC.

Essa redução é uma ótima notícia: hoje a desigualdade de renda atingiu o menor valor em nossa história. Porém, ainda somos um dos países mais desiguais do mundo.

O economista Sérgio Dillon Soares comparou as estatísticas de redução da desigualdade no Brasil com as dos EUA e do Reino Unido. Nos melhores momentos de redução da desigualdade nesses países (1938-54 no Reino Unido e 1929-44 nos EUA), a redução foi menor que a registrada durante o governo Lula. Porém, em 1938 no Reino Unido o coeficiente de Gini já estava em 0,40 e em 1929 nos EUA, o coeficiente estava abaixo de 0,50. Em 2002, com seus 0,58, o Brasil estava no mesmo nível que a Inglaterra de 100 anos antes. Isso demonstra o imenso atraso histórico do Brasil no início do governo Lula. O presidente poderia até melhorar essa situação, mas não dava para fazer milagres.

Vimos recentemente no mês de junho uma explosão de protestos por todo o Brasil. Milhões saíram às ruas exigindo melhorias no transporte público, saúde, educação, segurança, dentre várias outras coisas. Quase ninguém foi poupado, havia protestos contra a presidenta, os governadores, prefeitos e os políticos como um todo. Houve até uma forte rejeição dos militantes de partidos em muitas manifestações, em consequência da péssima imagem dos partidos diante da população.

Os militantes do PT foram talvez os mais hostilizados, pelo fato de o partido ocupar hoje a presidência da República. Isso fez com que muitos dos petistas se revoltassem contra as manifestações e passassem a criticá-las o tempo todo através das redes sociais. As manifestações foram até chamadas de fascistas, mesmo que os fascistas fossem um grupo minúsculo nas manifestações.

Muitos dos militantes do PT ainda não conseguem compreender a razão de tantos protestos. Se as coisas melhoraram tanto assim nos últimos 10 anos de PT, por que as pessoas estão tão revoltadas? Será influência da Globo, da Veja? Dos partidos de direita?

Creio que de tanto lerem sobre as melhorias feitas no governo do PT em sites que apoiam Dilma, às vezes eles se esquecem que hoje muitos morrem na porta dos hospitais, que muitos concluem o ensino fundamental mal sabendo ler e escrever, que temos índices de violência absurdos, que o dinheiro público é desviado aos montes desde o nível federal até o municipal, que temos uma enorme impunidade, que temos serviços públicos de má qualidade, que quase 50% dos nossos impostos vão para os bancos (isso a imprensa não critica. Já os gastos sociais…), dentre diversos outros problemas graves.

Devido a tudo isso, os protestos que ocorreram não foram contra o PT e sim contra a omissão do Estado como um todo. Mas as pessoas não sabem para onde direcionar a sua raiva.

Se muitos usaram o PT como alvo, é porque talvez ele seja o símbolo mais visível hoje desse Estado e quem estiver na presidência do país, vai ter que suportar o ódio por todo esse atraso histórico que temos. Vai ser cobrado por tudo o que fez, pelo que não fez e também por tudo de ruim que foi feito antes dele.

Sem dúvida a redução da desigualdade social é algo a ser comemorado, mas independente do quanto ela tenha reduzido, a população jamais deve ficar satisfeita com isso e deve cobrar muito mais. Já que o país começou a caminhar, deve haver cobrança para que caminhe muito mais rápido.

Se não houver pressão por parte do povo, vencerá a pressão dos patrocinadores das campanhas eleitorais (grandes empresas), dos partidos aliados do governo, da imprensa e da oposição.

Somente com a pressão constante do povo sobre Dilma e os demais políticos é que é possível fazer o país avançar mais rápido. Se o povo ficar aguardando que eles, por conta própria, dentre tantas negociações e acordos, façam o país avançar, esperaremos mais uns 100 anos até que o Brasil se torne um país desenvolvido socialmente.

Se uma pessoa que ganhava 200 reais por mês (dentre aqueles 10% mais pobres) passou a ganhar 400 reais, ele teve um aumento de 100% na sua renda (menos, por causa da inflação), o que é lindo a nível estatístico, mas essa pessoa continua vivendo mal. E bem pior que a sua pequena renda é não ter acesso a tratamento de saúde digno quando ficar doente ou não ter uma escola pública decente que permita que seus filhos tenham uma vida melhor, ou um transporte público gratuito.

Se muitos se alimentam mal, não necessariamente isso ocorre pelo preço da comida e sim porque o custo de vida está muito alto. Alguém que ganha 400 reais, após descontar aluguel, água, luz, transporte e outras necessidades básicas, terá muito pouco dinheiro para sua alimentação.

Fizemos os nossos políticos trabalhar em velocidade recorde durante um mês, tudo porque nos reunimos e saímos às ruas para protestar. Bastou pararem as manifestações, que eles em pouco tempo voltaram a trabalhar a passos lentos novamente. Espero que novos junhos surjam e que não sejam apenas na Copa do Mundo. O meu sonho é ver aquelas manifestações ocorrendo durante o ano todo. Talvez isso seja apenas um sonho mesmo, mas sonhar não faz mal, o triste é deixar de sonhar com um mundo melhor. Que muito mais gente sonhe e lute por isso, para que nossos filhos e netos vivam em melhores condições que nós.

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