Um desastre anunciado: o cardápio dos generais para orientar o que seria o governo Bolsonaro. Por Joaquim de Carvalho

O general Augusto Heleno e o capitão, que foi um “bunda suja” no Exército.

O repórter Humberto Trezzi, do jornal Zero Hora, teve acesso ao QG de Jair Bolsonaro em Brasília e adianta alguns pontos do que seriam as diretrizes básicas do governo dele, medidas que seriam anunciadas logo no início do mandato. É uma volta ao passado, um pacote ideológico, com viabilidade incerta em muitos pontos.

O coordenador do grupo é o general Augusto Heleno, que foi o primeiro comandante da Força de Paz no Haiti. Participam também os generais Oswaldo Ferreira, Aléssio Ribeiro Souto e Carlos Alberto Santos Cruz, que comandou as Forças de Paz no Haiti e no Congo. O grupo se reúne no Hotel Imperial, em Brasília, segundo a reportagem.

Uma das medidas em estudo, por exemplo, é mudar a orientação pedagógica nas escolas. “O plano de governo de Bolsonaro prevê que, na alfabetização, será expurgada a “ideologia” do pedagogo Paulo Freire, via mudanças na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Será vetada a aprovação automática. Os currículos teriam a volta das disciplinas de Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil (OSPB)”, escreve.

Não existe ideologia de Paulo Freire nas escolas. Quem faz essa afirmação é ignorante, certamente contaminado pelas papagaiadas ditas por Olavo de Carvalho na internet, nos períodos em que ele não está se tratando por razões de saúde, mental inclusive.

Paulo Freire escreveu uma série de livros sobre o processo de aprendizagem — não existe um método Paulo Freire de alfabetização — e, em razão do conjunto da obra, é considerado um dos mais importantes pensadores da educação no mundo.

O eixo de seus estudos está na forma como uma pessoa, qualquer pessoa, criança ou adulto, deve aprender. Não é uma imposição, é uma observação. Em linguagem simples, é o conhecimento que brota de dentro para fora, não o contrário. Por exemplo, a pessoa deve ser estimulada a construir o próprio conhecimento, a partir de sua realidade, não como um ser passivo que recebe informações como se fosse uma conta bancária abastecida por depósitos.

A “educação bancária” é uma forma de aprender, sem dúvida, mas os resultados podem ser melhores se o aprendiz juntar as peças e tirar conclusões que podem fazer dele um cidadão autônomo em termos de busca de conhecimento. O “método” Paulo Freire, que não existe enquanto método, orienta a pedagogia em muitos países desenvolvidos, principalmente na Europa, e é a base de pedagogias aplicadas.

Em São Paulo, uma das melhores escolas particulares (e mais caras) foi criada pela filha de Paulo Freire, Madalena, em 1980. Seguiam princípios filosóficos do pai. Recentemente,  foi vendida e, suprema ironia, quem adquiriu o bem-sucedido empreendimento educacional foi um grupo que é dirigido por simpatizante do MBL.

Naturalmente, ele não comprou para destruir a pedagogia ali aplicada, que dava certo, mas para ganhar dinheiro — egressos da escola têm resultados excelentes na aprovação de vestibular e em outras formas de exame para ingresso em universidades do exterior.

Uma análise das medidas em estudo pelos generais mais próximos de Bolsonaro mostra uma tentativa de orientar o governo pelo que poderia ser considerado conceitos ideológicos. Claramente uma tentativa de desconstruir pilares da república a partir da redemocratização.  

“As linhas mestras do plano de governo foram traçadas e serão cotejadas com a opinião dos apoiadores civis de Bolsonaro – industriais, comerciantes, proprietários rurais e banqueiros. Falta consenso em alguns pontos vitais, como a reforma da Previdência e as cotas raciais. Mas grande parte das ideias já está esboçada para o caso de Bolsonaro vencer a eleição. GaúchaZH conversou com integrantes do núcleo e antecipa aqui algumas dessas metas”, informa Trezzi.

Resumidamente, seguem as medidas elencadas por ele:

  • Reduzir de 29 para 15 o número de ministérios.
  • Reduzir o número de cargos de confiança e funções gratificadas.
  • Reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos — aqui cabe um comentário meu, não de Trezzi: essa redução terá como resultado imediato o aumento da população carcerária, o que casa com a aventada hipótese de Bolsonaro privatizar a gestão de presídios. Mais presos significam maior receita para essas empresas.
  • Tipificar como terrorismo as invasões de propriedades rurais e urbanas no território brasileiro. 
  • Muda o foco da política dos direitos humanos — a vítima de crime teria prioridade.
  • Menos orientação sexual nas escolas.
  • Prioridade ao ensino primário e médio.
  • Revisão da bibliografia sobre o golpe de 1964, que não seria mais chamado de golpe, mas de contrarrevolução, uma medida necessária para evitar a ditadura comunista no Brasil. Comentário meu: historicamente, nunca houve ameaça concreta de ditadura comunista, mas vá lá. Com essa diretriz, pretendem implantar a “escola sem partido”?
  • Manter os programas sociais, inclusive o Bolsa Família, com um pente fino para identificar irregularidades.
  • Retomar obras paradas.
  • Mais militares em postos de governo — comentário meu: teve um prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que encheu de coronéis da PM na administração e o resultado não foi maior eficiência. A segurança pública no Rio de Janeiro está sendo tocada por militares. Melhorou?
  • Endurecimento do regime prisional, com o a proibição de visitas íntimas.
  • Exclusão de ilicitude para policiais que matam em serviço — na prática, carta branca para matar. Comentário meu: na prática, os policiais já matam muito, só que hoje têm que criar um cenário para dizer que foi em legítima defesa, criando expedientes como “fazer a mão” do assassinado, isto é, dar um tiro para que haja contaminação por elementos da pólvora e criar a historinha de que houve tiroteio.
  • Criar um banco de DNA, para facilitar a identificação de criminosos.

Bem-vindo de volta aos anos 60 e 70 do século passado.

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