
Alex Preston, colaborador do New York Times como crítico de literatura, foi dispensado pelo jornal não só por ter usado a inteligência artificial em uma resenha.
É pior e vai se repetir muito a partir de agora. Usou uma IA que entregou a Preston trechos de uma resenha do The Guardian sobre o livro que ele iria comentar.
A IA oferece os trechos, sem identificação de autoria, e induz a um erro que o Google ainda evita: nas pesquisas até agora, sabíamos na maioria das vezes de onde saiu aquilo. A IA copia e oferece textos sem autor.
No mesmo dia em que essa notícia sobre Preston está nos jornais, há outra informação em direção contrária na capa da Folha.
O diretor de redação do jornal diz que a IA vai salvar o jornalismo exatamente por absorver tudo o que os jornais produzem e devolver como guisado já mastigado. É o novo vampirismo aplaudido.
“Inteligência artificial é degrau para a evolução do jornalismo, diz Sérgio Dávila na CasaFolha”. É mais do que um degrau.
A Folha incentiva o uso da IA, não só para consultas genéricas (o que parece inevitável), mas para a produção de textos com pedidos específicos. É um elevador.

Um jornalista ou colunista da Folha pode pedir para a IA: escreva algo sobre o powerpoint de Andréia Sadi.
E não acontecerá nada, como já ficou claro com a confissão de uma colunista, Natalia Beauty, e a descoberta da ombudsman de que a IA está escrevendo muitos dos textos da Folha.
Um texto sempre esteve, mais para o bem do que para o mal, a serviço da vaidade de um jornalista. Apurar uma informação e transformá-la naquele texto único produziam uma ostentação comemorada em redações e mesas de bar.
Agora, a IA faz tudo. Pelo menos a IA não frequenta mesa de bar. Ainda. Mas deixem cadeira reservada.