Um jornalista em guerra com os Estados Unidos

Piers Morgan: “Se não mudarem as leis de controle de armas, eu mesmo me deporto”

Morgan

 

Desde a guerra pela indendência americana um inglês não era tão odiado. O jornalista Piers Morgan virou motivo de uma petição online, no site da Casa Branca. O texto, criado por um jornalista do Texas, diz que ele está “engajado num ataque hostil contra a Constituição dos Estados Unidos para solapar a Segunda Emenda. Nós exigimos que o senhor Morgan seja deportado imediatamente”. Quase 95 mil pessoas, até agora, já assinaram o pedido. A Casa Branca promete analisar os casos com mais de 25 mil votos.

Não vai dar em nada, provavelmente, mas Morgan marcou um ponto. Desde o massacre da crianças em Newtown, ele assumiu uma posição combativa a favor do banimento dos rifles de assalto em seu programa de entrevistas na CNN e em sua conta no Twitter. Na TV, mandou John Lott, autor do livro Mais Armas, Menos Crimes, calar a boca, após uma discussão acalorada. O roqueiro Ted Nugent, bom guitarrista, mas um paranoico de chapéu de caubói, sugeriu que ele caísse morto e “chupasse sua metralhadora”.

 

 

Depois recebeu Larry Pratt, diretor de um grupo lobista pró-armas. Pratt afirmou que normas mais rígidas não dariam fim a tragédias como a de Connecticut. “Nós só temos problemas em algumas cidades e, infelizmente, em escolas onde pessoas como você são capazes de criar leis que impedem as pessoa de se defender”, disse. Morgan foi para cima: “Você é incrivelmente estúpido, não é”. Em seguida definiu Pratt (cujo sobrenome tem a mesma grafia da gíria que designa traseiro ou bunda) como “um homem perigoso casado com perigosas ideias sem sentido”.

 

 

A resposta dos ingleses para a ameaça de deportação foi deliciosa. Uma petição intitulada “Mantenha Piers Morgan nos EUA”, com parcos 8 mil votos, declara: “Há duas razões para isso. Primeiro, a Primeira Emenda (que garante a liberdade de expressão). Depois e mais importante. Ninguém no Reino Unido o quer de volta. Na verdade, existe uma terceira. Será hilariante ver como um monte de americanos revoltados vai reagir”.

Morgan está bem longe de ser santo. No Reino Unido, foi editor de tabloides como The Sun e o infame News of The World. Depôs no Inquérito Leveson sobre grampos. Mas, no caso da obsessão obtusa pela violência, está do lado certo da trincheira. Ele publicou um depoimento no site do Daily Mail. Eis alguns trechos:

“Eu disparei armas apenas uma vez em minha vida, em uma despedida de solteiro em Praga, alguns anos atrás, quando parte do itinerário incluía um tour num estande de tiro. Durante três horas, o nosso grupo usou de tudo, desde Magnums 45 a revólveres e pistolas Glock, rifles de alta potência e espingardas.
Era controlado, legal, seguro e inegavelmente excitante. Mas também me mostrou, comprovadamente, que as armas são máquinas de matar.”

“Eu tenho quatro filhos. E eu ainda me lembro do terror que senti quando perdi meu filho Stanley, então com 2 anos, por meia hora em uma partida de críquete em um campo cercado por um pequeno riacho. Eu tinha certeza de que ele tinha se afogado. Mas tive sorte: ele finalmente emergiu de onde tinha se escondido – seu grande sorriso atrevido intacto.
Cada pai tem uma história semelhante. Imaginar como você se sentiria se o seu filho fosse baleado várias vezes na cabeça por um Rambo louco na escola é simplesmente impossível. Eu honestamente não sei como alguém continuaria vivendo. Mas a minha raiva se transformou em raiva cega quando vi a reação a este massacre hediondo nos Estados Unidos”.

“As vendas da arma utilizada, um fuzil AR-15 de assalto de estilo militar, dispararam em toda a América nos dias após o tiroteio em Sandy Hook. E o maior fornecedor do país, Brownells, disse que vendeu mais revistas com balas em três dias do que em três anos e meio. O que está por trás desse comportamento aparentemente insano? A resposta é, principalmente, medo.
O bem-organizado, ricamente financiado, vociferante lobby pró-armas foi ao meu programa da CNN, e a muitos outros meios de comunicação, declarar que a única forma de os alunos sobreviverem teria sido se seus professores estivessem armados”.

"Vai um AR15?"

“A lógica do lobby é que a única maneira de se defender contra os criminosos armados é todo mundo ter uma arma, também. Professores, enfermeiros, religiosos, funcionários de lojas, bilheteiros de cinema – todos deveriam andar armados. Para mim, isso é uma lógica deformada que não tem qualquer sentido. Você luta contra o vício de drogas com mais cocaína? Alcoolismo com mais Jack Daniels? Claro que não”.

“Nos dias seguintes a Sandy Hook, entrevistei representantes de organizações a favor de armas de fogo e fiquei cada vez mais furioso. Finalmente, minha raiva irrompeu sobre um deles, um homem com o nome infeliz de Larry Pratt. ‘Você’, eu finalmente declarei, ‘é um homem incrivelmente estúpido’. E esse foi o catalisador para a ira do lobby das armas bater na minha cabeça britânica.O esforço para me atirar para fora do país me pareceu bastante irônico, uma vez que, por expressar a minha opinião, eu estava apenas exercendo os meus direitos como residente legal dos EUA sob a Primeira Emenda, que protege a liberdade de expressão.
Mas não importa.
Este debate é uma arma na guerra verbal em curso na América – e eu sou apenas o mais recente alvo, com a vantagem para os lobistas de que eu sou britânico, uma raça de seres humanos que incendiou a Casa Branca em 1814 e teve de ser vigorosamente deportada em massa, como nenhum americano jamais poderá esquecer.”

“Não é nenhum exagero dizer que o gosto único da América por armas praticamente foi cimentado pelo ódio a nós, britânicos, na Guerra da Independência. Mas o principal motivo dos mais fervorosos ativistas é o medo do próprio governo federal dos EUA pôr em risco a sua liberdade.”

A petição no site da Casa Branca, pedido sua deportação

“Minha campanha contra as leis americanas de armas não começou há duas semanas, quando Adam Lanza cometeu o massacre. Começou uma semana antes de eu ir ao ar na CNN, em janeiro de 2011. Uma congressista dos EUA chamada Gabby Giffords foi baleada na cabeça por outro homem perturbado em um evento ao ar livre, em Tucson, Arizona, e milagrosamente sobreviveu. Seis outras pessoas, incluindo uma menina de 9 anos de idade, foram assassinadas. Foi um incidente terrível, mas, para minha surpresa, nada aconteceu. Uma semana de debates e sobrancelhas franzidas, e vida que segue”.

“Eu tenho ficado chocado com a forma como os políticos americanos têm sido intimidados em um lamentável, vergonhoso silêncio pelos lobistas de armas e pela toda-poderosa NRA, National Rifle Association, em particular. Tem sido uma campanha concertada, cruel e altamente bem sucedida. E para aqueles que, como eu, os enfrentam, eles zombam: ‘Você não sabe nada de armas. Mantenha a calma’.”

“Meu argumento não é baseado em ódio universal e patológico deles. Eu não sou um pacifista. Armas são necessárias para derrotar regimes tirânicos como o dos nazistas.
Também não tenho um problema com aqueles que usam armas para caçar ou para esporte. Eu também entendo e respeito, como há uma crença inerente nacional nos Estados Unidos, com base em sua compreensão da Segunda Emenda, que todos devem ser autorizados a ter uma arma em casa para fins de auto-defesa.
Mas eu tenho um grande problema quando a formulação ambígua, infelizmente, da Segunda Emenda serve para dizer que qualquer um pode ter qualquer arma, por mais poderosa, e em qualquer quantidade que quiser.
Isto levou ao cenário absurdo em que eu não posso comprar legalmente seis pacotes de um antialérgico em um supermercado porque todos isso é considerado um risco à saúde. No entanto, posso passear no Walmart e comprar uma braçada de AR-15 e revistas que dão de brinde até 100 balas de uma vez”.

“Obama deveria recomprar todas as armas de assalto em circulação. Eu iria mais longe, confiscando as restantes, com penas de prisão duras para aqueles que insistirem em manter uma. Ele também deveria aumentar significativamente o financiamento federal do tratamento de saúde mental para todos os americanos que precisem. É o coquetel letal de instabilidade mental e disponibilidade de armas que é o componente chave em quase todos os massacres”.

“E deixe-me dizer para cada americano que me atacou no Twitter, no Facebook ou na Fox News: eu lhes agradeço por me incentivar a continuar falando – inclusive uma senhora que, pouco antes do Natal, agarrou meu braço e disse com firmeza: ‘Eu estou com você. Muitos de nós estamos com você.’ ”

“Concluindo, eu pouparia os esforços dos americanos que querem me deportar. Se vocês não mudarem suas leis de controle de armas, não precisam se preocupar com isso. Embora eu ame o país como uma segunda casa, na condição de um pai preocupado — agora de uma uma menina de 1 ano que pode frequentar uma escola como Sandy Hook daqui a três anos –, eu consideraria seriamente a possibilidade de eu mesmo me deportar”.

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