Um palmeirense se insurge contra o monopólio dos ‘gambás’ na Globo

Até numa novela aparece uma ‘gambazinha’.

Corinthians na Libertadores
Corinthians na Libertadores

O texto abaixo foi publicado, originalmente, no site Forza Palestra.

Não faz muito, na década de 1990, não havia futebol na TV aberta no domingo à tarde. Os únicos jogos televisionados (quase nunca para a mesma praça) eram os de sábado à tarde (16h) e quarta à noite (21h30). Não havia, portanto, as aberrações que hoje são comuns (22h, fim de semana às 18h30, dia de semana às 19h15 etc.). E a distribuição dos jogos transmitidos por clube era equânime, ao menos entre o Trio de Ferro. Ponto.

Não tenho condições de fazer um levantamento sobre o que mudou na relação TV x futebol (é contra mesmo) nas últimas duas décadas. Para os propósitos deste post, basta expor o seguinte cenário:

Libertadores/2013. Considerando fase de grupos e oitavas, os três representantes paulistanos  entraram em campo oito vezes (quatro em casa e quatro fora). O Corinthians teve todos os seus oito jogos transmitidos ao vivo, para todo o país, em horário “nobre”. O São Paulo teve apenas três, sempre confrontos diretos com outro clube brasileiro. O Palmeiras, por sua vez, não teve sequer uma partida na TV aberta.

O universo de análise é o da Libertadores, mas, de forma geral, isso se aplica a todas as competições recentes: instituiu-se um monopólio nas transmissões televisivas (e se antes os gambás clamavam pelo monopólio do sofrimento e por outros mais, agora ganharam um de verdade, este ainda mais maléfico do que as falácias de costume).

Aí virá algum imbecil (ou mais de um) dizer que os gambás têm mais torcida, dão mais audiência etc. e tal.

Muito perspicaz da parte do imbecil, não? Pois então é necessário dizer que o Corinthians sempre teve mais torcida que os rivais e a propalada diferença não necessariamente se converte em audiência assim tão mais expressiva. Os números estão aí para provar, em especial porque mesmo torcedores de outros clubes acabam por assistir aos jogos – isso se aplica a todos, vale dizer. Portanto, o que está em jogo não é audiência. Definitivamente.

Ainda que fosse, o erro estratégico está em atender, valorizar e, digamos, fidelizar apenas uma parcela do público, marginalizando toda aquela parte que, vejam só, é a maioria. Na busca por uma suposta audiência elevada, a emissora câncer deste “país do futebol” (ah, que piada!) acaba por ignorar todos os demais. É de uma cretinice sem tamanho.

Porque se é verdade que os gambás têm mais torcida (e, potencialmente, gerariam mais audiência), é ainda mais correto dizer que uma emissora de TV (seja ela a maldita Rede Globo ou qualquer outra) tem muito mais a ganhar com a aposta em diversificação do público, que é o que acontece desde sempre.

Acontece que os últimos anos ficaram marcados por essa agenda diferenciada, em que somente um clube tem espaço.

De minha parte, eu quero mais é que a Globo se foda. Como vou ao estádio aqui e fora de casa, pouco me importa se vai rolar transmissão na TV aberta ou não; a questão toda é que essa divisão desigual na grade de programação tem desdobramentos muito mais sérios, sendo os principais aqueles relacionados à distribuição das cotas de TV e à obtenção de patrocinadores (porque é evidente que as empresas vão querer pagar mais para quem tem exposição maior e mais qualificada).

Pior até: como 95% do público não vai ao estádio (ou por opção ou por residir em outros estados), a TV é uma das poucas formas de interação com o clube. É a maneira de manter uma relação, fortalecer o sentimento e, no limiar, transmitir isso para outros.

Com um único clube na TV, é possível a repetição de um esquema que, em tempos idos, fez dos clubes cariocas tão fortes nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste: as então onipresentes rádios cariocas se encarregaram de difundir a “imagem” (relevem, por favor) dos clubes cariocas Brazil afora.

Mas a coisa sempre pode piorar: porque agora, talvez na tentativa de reforçar ainda mais a concentração de público, a Rede Globo resolve lançar mão de sua arma mais midiática para uma divulgação gratuita daquelas falácias todas que já conhecemos. Vejam os senhores que a nova novela das 7 (acho que é isso) traz uma personagem gambá. Sim, é isso mesmo que os senhores estão lendo: uma personagem gambá. Atenção para a nota extraída do site da emissora: “Fulana de tal apresenta a corintiana Giane”.

Observem com atenção: o “corintiana” foi aplicado ao nome como um aposto mesmo. Onde normalmente deveria aparecer a profissão da criatura, mandaram ver um “corintiana”. Notem que a cidadã não é professora, nem médica, nem advogada, nem puta, nem qualquer outra merda; é “corintiana”.

E a escolha da personagem (e da atriz, enfim) atende bem aos propósitos recentes de higienização e domesticação da torcida gambá. O perfil do público lá do outro lado mudou. Não é à toa.

Se isso não é uma tentativa de estabelecer uma realidade que interessa às conveniências globais, eu não sei mais o que é. Se você concorda, apoia ou entende como normal o fato de um time ter oito jogos transmitidos enquanto o seu maior rival não tem nenhum, então você é mais um dos putos que estão matando o futebol. E se não vê mal algum nessa história da gambazinha da novela, ou é mal intencionado ou é um cretino mesmo.

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