Um romance que define a ditadura militar: a busca desesperada de um pai pela filha desaparecida

Ana Rosa
Ana Rosa

Se um romance define a ditadura militar em seu horror abissal, este é K., do escritor e jornalista Bernardo Kucinski, 76 anos.

K. é um tributo, uma catarse, uma obra de amor, um depoimento pungente, finamente escrito, avassaladoramente doído e nem por isso menos firme.

Como avisa Kucinski, é tudo invenção – mas ao mesmo tempo quase tudo verdade.

É um livro especialmente relevante agora, no calor dos 50 anos do golpe militar.

K. é o pai de Kucinski, e o romance é a busca desesperada que ele trava pela filha desaparecida.

É um caso real. A irmã de Kucinski, Ana Rosa, foi uma das vítimas do terror da ditadura.

Ana Rosa era professora de Química da USP. Tinha 32 anos quando sumiu, em abril de 1974.

K., depois de alguns dias sem nenhuma notícia da filha, começa a procurá-la. Vai à USP, onde amigas nervosas têm poucas informações para lhe dar.

Naqueles dias, a ditadura enchera de espiões as universidades brasileiras, e a USP mais que todas. Todo mundo tinha medo de estar sendo espionado.

Aos poucos, K. vai se dando conta de que conhecia pouco da filha. Ela tinha, como todos os militantes da esquerda armada de então, uma vida dupla.

O pai não sabia, por exemplo, que ela se casara. Seu marido, um físico, era também militante. Sumiram juntos.

Kucinski
Kucinski

Depois de um certo tempo K. entende que ela é uma desaparecida política. Faz tudo que pode para localizá-la. Como judeu, ele pede ajuda à comunidade judaica brasileira e internacional.

Nada.

Uma conversa particularmente dura é travada com um empresário da televisão, judeu como K. Ele imaginava que com ele conseguiria algum acesso a pessoas influentes entre os militares.

A esperança se vai quando ele ouve o seguinte: “Mas ela não é comunista?” Não é nomeado o homem da televisão, mas podemos bem imaginar quem seja.

Logo K. começa a ser torturado mentalmente pelos responsáveis pelo sumiço da filha. Um dia lhe dizem que ela fora vista em Portugal, e que ela voltaria ao Brasil num vôo da TAP numa terça-feira.

Era mentira.

Outra vez lhe tomaram dinheiro sob a promessa de informações, mas era apenas um achaque.

Desesperado, K. reflete que mesmo na Alemanha nazista os judeus sabiam que familiares seus tinham sido mortos.

Mas ali, na ditadura brasileira, não. As pessoas desapareciam, e você não sabia nada sobre elas.

Ana Rosa provavelmente morreu na Casa da Morte, um centro dedicado à tortura em Petrópolis. Seu marido, imagina-se, teve o mesmo destino na mesma casa macabra.

O irmão de Ana, em K., é um personagem secundário no drama em que os protagonistas são um pai desesperado e uma filha sumida.

Mas, conhecida a história real, pode-se deduzir que muito dele está na figura de K. Kucinski procurou alucinadamente sua irmã.

Disse ele certa vez: “A morte já é um sofrimento suficiente, por assim dizer. Um sofrimento brutal. Agora, a incerteza de uma morte, que no fundo é certeza, mas formalmente não é, é muito pior. Passam-se anos até que as pessoas comecem a pensar que houve morte mesmo. E os pais, principalmente, já mais idosos, nunca conseguem enfrentar essa situação com realismo.”

Kucinski traz alguns detalhes curiosos para quem se interessa pela rotina dos guerrilheiros. Por exemplo, quando eles combinavam um encontro, fixavam uma hora e um dia além do acertado, por razões de segurança. Dia 30 às 11 horas na verdade queria dizer dia 29 às 10, para que a polícia nada pudesse fazer se descobrisse o encontro.

De certa forma, Kucinski, com K., reencontrou a irmã. E eternizou, numa pequena obra prima, o pai, em sua jornada épica, incansável, corajosa e afinal fracassada para obter informações sobre a filha que um dia saiu e não voltou mais.