
“Aquilo que causa a noite entre nós também pode deixar estrelas.”
— Victor Hugo
A pessoa que mais amei na vida foi meu pai. Um homem sem instrução formal, mal desenhava o próprio nome. E tinha a segurança de quem sabia estar do lado certo da história. Certa vez, eu o apresentei, em um jantar, a um embaixador culto e sofisticado. Minha mãe sorriu e me falou: “Curiosa para saber o que vão conversar”. Deixei os dois a sós e voltei uma hora depois. O embaixador estava encantado com as histórias que meu pai contava. Seguro. Alegre. Feliz. Um contador de casos, em regra, vividos e inventados, pois lhe faltavam histórias de livros e romances literários. Mas eram os mais instigantes, engraçados e excêntricos.
Sua ânsia de viver marcou a vida de toda a minha geração que convivia com ele. Era um homem duro na sua lida rural e diária, mas o mais amoroso que conheci. Beijava e abraçava muito os filhos, sobrinhos e amigos. Em uma época de carinhos contidos entre os homens, ele era desbravadamente afetivo. Tinha orgulho do beijo dado. Fazia bem a ele e a nós.
Excesso de afeto nunca é demais. Aprendi isso nas madrugadas frias, andando a cavalo ao lado dele, ao romper da aurora, ou simplesmente ouvindo as histórias sem fim que ele contava e inventava. Era uma época de perplexidades profundas. Muitas dificuldades. Ele só pedia uma coisa aos cinco filhos: “Estudem. Façam uma faculdade. Façam o que eu não consegui fazer”.
E ele queria ter feito Direito. Não passou do primário, mas aprendeu com intensidade o que não se aprende nas universidades. Lembro-me do orgulho com que ele contava que todos os cinco filhos tinham se formado em universidades públicas. Como não consegui ser poeta, eu, no fundo, fiz Direito para tentar mudar o mundo e para me sentir perto dele. Sou um pouco ele. Ele está sempre comigo.

Escrevo isso na angústia da votação para presidente da República. Depois de um debate não definitivo, no qual o miliciano se jactou de ser um miliciano, fez questão de afrontar um trabalhador que perdeu um dedo em um acidente de trabalho, logo ele, que viveu a vida inteira de rachadinhas e negócios escusos, sem conhecer o que é trabalho.
É impossível não pensar no que faria meu pai nestas eleições. Homem simples, da roça, conservador, ele tinha seus princípios e definições. Eu tenho certeza de que jamais apoiaria um miliciano, covarde, que protege e se associa a matadores de aluguel. No interior de Minas Gerais, o matador de aluguel, o mandante de assassinato, é muito mais desprezado do que o assassino por paixão.
O homem que mente como Flávio Bolsonaro é tido como uma pessoa que não merece crédito. São conceitos e regras básicas. Comuns. Não é preciso recorrer à filosofia. Aquele que mente compulsivamente não merece nossa confiança.
Meu pai era um homem rude na lida com os bois, os cavalos e a vida dura da roça. Mas foi com ele que aprendi a respeitar as mulheres, os pobres, os invisíveis sociais. O carinho, o cuidado e o respeito dele por minha mãe eram envolventes. Cresci vendo-o colocar minha mãe no céu, com uma quase veneração.
Meu pai nunca levantou a voz nem para minha mãe nem para os filhos. Eu cresci certo de que esse amor e respeito eram a regra entre as famílias. Demorou muito para eu sentir que o mundo surpreende e que a vida dá, nega e tira, como digo, parafraseando Trasíbulo Ferraz.
Minha vida, embora simples e marcada por grandes dificuldades financeiras, era muito feliz. Aprendi a amar incondicionalmente. A ser solidário. A ter empatia. A sofrer a dor dos outros.
Sem nunca ter um partido político, aprendi a respeitar o PT. Humanista de esquerda. Aprendi a admirar o trabalho de Lula, que se empenhou em retirar o Brasil do mapa da fome. A desprezar o cinismo bolsonarista no negacionismo da pandemia. Tudo simples e profundo, como o velho e amado Alaor do Leão. Do lado certo da história. E com paixão e coragem.
Por isso, ouso pedir seu voto para um Brasil que queremos livre das amarras e mordaças bolsonaristas da extrema direita.
Você pode não ser petista, como eu não sou. Pode considerar que Lula ficou tempo demais no governo e que deveria ter trabalhado outro nome para sua sucessão; que Janja fala muito, embora seja bom ter uma primeira-dama ativa. E é bom lembrar que é ela quem mantém Lula feliz, renovado, com força e disposição.
É verdade que a renovação faz bem ao Estado Democrático de Direito. Mas não podemos apoiar um projeto miliciano, que apoia e favorece facínoras, matadores e achacadores, de uma extrema direita golpista que quer entregar o Brasil a Trump e pede a intervenção militar.
Enfim, é uma hora de decisão para definir o país que queremos para nós, nossos filhos e nossos netos. Para mim, é fácil, pois voto a favor da vida, do respeito e da liberdade.
Se for difícil para você votar em Alckmin e Lula, vote contra os apoiadores da tortura, dos milicianos, dos amantes da mentira. Votando assim, estaremos do mesmo lado. Vamos votar para a democracia ganhar. Vamos virar.
Lembrando o velho Winston Churchill:
“A diferença entre os humanos e os animais é que os animais jamais permitem que um estúpido lidere a manada.”