Uma escola de princesas em pleno século XXI?! Por Nathali Macedo

Uma "Escola de Princesas" foi aberta em Uberlândia (MG)
Uma “Escola de Princesas” foi aberta em Uberlândia (MG)

Todo 12 de outubro é a mesma coisa: a angústia de conseguir presentear as crianças da minha família sem compactuar com estereótipos de gênero. Na loja de brinquedos, a seção de meninas (?) é um universo cor de rosa. Doem-me os olhos.

Panelinhas cor de rosa, ferrinhos de passar cor de rosa, vassourinhas cor de rosa, bonecas cor de rosa, e, finalmente, um brinquedo que não remete a tarefas domésticas: varinhas de princesa cor de rosa. (Desapontada, mas não surpresa.)

Na seção de meninos (?), as possibilidades são infinitas. Carrinhos, bolas, bonecos de super-heróis, jogos de raciocínio e habilidades múltiplas, e uma certeza: para a indústria infantil, os meninos devem ser treinados para serem espertos e fortes. As meninas – não por acaso, no país de uma primeira dama bela, recatada e do lar – devem ser educadas para tornarem-se dóceis princesas.

Eis, portanto, um país culturalmente favorável para uma Instituição que teve a ideia brilhante e inovadora de criar uma Escola de Princesas. Meninas de 4 a 15 anos aprendem regras de etiqueta, maquiagem, culinária e organização da casa: uma verdadeira máquina de belas, recatadas e do lar.

Com o uniforme é sainha cor-de-rosa e camisa gola polo, as crianças são ensinadas a alcançarem o que a psicopedagoga e idealizadora da escola acredita ser o sonho de toda menina: tornar-se uma princesa impecável.

A ideia retrógrada, pasmem, tem sido um sucesso. Como não seria, aliás, se nossas meninas não são ensinadas a quererem nada além de tornarem-se princesas impecáveis?

Se você é feminista convicta em uma família conservadora, há de me compreender imediatamente: nossa luta contra o patriarcado começa em casa.

A minha, particularmente, é posta a prova todas as vezes em que elogiam a minha sobrinha chamando-a de “Princesa” e “linda”. Meu sobrinho é “esperto”, “forte” e “inteligente.”

Frases como “não existe brinquedo de menina e brinquedo de menino” ou “você é uma menina esperta e pode ser qualquer coisa que quiser, porque profissão não tem gênero” são imediatamente encaradas como “coisa de feminista-comunista-do-contra.”

Muitas dessas famílias enviariam suas filhas para uma escola de princesas cor de rosa – não porque as querem cativas, mas porque acreditam, e com todas as boas intenções possíveis, que princesas impecáveis é tudo o que elas podem ser – na contra-mão da despatriarcalização que já se apresenta, tímida, em muitos nichos sociais no Brasil.

Enquanto isso no Chile – um país em que sequer as leis que regulamentam o aborto e outras pautas feministas são flexíveis – há uma oficina de “desprincesamento”, criado pelo Escritório de Proteção de Direitos da Infância, que objetiva empoderar garotas com aulas de defesa pessoal, atividades manuais e artes.

Nenhum contraponto poderia ser mais reconfortante: Se no Chile, um país em que o aborto de fetos oriundos de estupro foi regulamentado apenas em 2016 , cria-se um curso de desprincesamento, por que não no Brasil? O que é uma Primeira-Dama bela, recatada e do lar perto de nosso desejo incessante de despatriarcalização e empoderamento de nossas meninas?

O machismo é uma questão cultural e estrutural, e a cultura, felizmente, não é fixa e estática: a cultura somos nós.

E, para não perder o otimismo (que parece ser a única saída), uma certeza: o Brasil que tem uma Escola de Princesas tem também um Movimento Feminista crescente e atuante – crescente, sobretudo, dentro de nós e de nossos círculos sociais.

No que depender de mim, as meninas da minha família continuarão aprendendo que os contos de fadas mentiram e que elas, sim, podem ser qualquer coisa que quiserem.

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