Uma verdade incômoda para Bolsonaro: ele tem um pé no Escritório do Crime. Por Joaquim de Carvalho

Bolsonaro pegou peixe grande em Aratu, mas não quis ficar lá após resolver pepinos enormes. Foto: PR

A ofensiva do Ministério Público e da Polícia Civil no Rio de Janeiro hoje contra o Escritório do Crime traz à tona as relações da família Bolsonaro com a milícia e um de seus ex-comandantes, Adriano da Nóbrega, o Capitão Adriano, morto em fevereiro pela Polícia Militar da Bahia.

Jair Bolsonaro conhece Adriano há bastante tempo e, segundo declarou, foi dele a iniciativa para que o filho Flávio homenageasse o miliciano em 2005, quando ele ainda não tinha sido expulso da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Por mais que o Ministério Público negue que esteja investigando Bolsonaro — a prerrogativa para tanto é do procurador geral da república, Augusto Aras —, é inevitável que, em algum momento, o inquérito dos promotores esbarre na família Bolsonaro, como já esbarrou.

O Ministério Público encontrou depósitos no valor aproximado de R$ 400 mil de Adriano da Nóbrega nas contas de Fabrício Queiroz, operador da família Bolsonaro.

A mãe e a ex-mulher do capitão Adriano, Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, foram nomeadas assessoras de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa.

Fabrício Queiroz assumiu a paternidade da nomeação e, recentemente, soube-se que ele mantinha com Adriano um plano de fuga caso fosse preso.

Com Adriano morto, alguém providenciou a fuga de Márcia Oliveira de Aguiar, esposa de Fabrício, quando sua prisão foi decretada. Seria algum sucessor no escritório do crime?

Adriano tinha como advogado Paulo Emílio Catta Preta, que mantém relacionamento, inclusive social, com o também advogado Frederick Wassef.

Catta Preta assumiu a defesa de Fabrício Queiroz alguns minutos depois da chegada do operador da família Bolsonaro ao presídio de Benfica, porta de entrada do sistema prisional do Rio.

Sem dar detalhes, o Ministério Público do Rio vazou a informação de que Wassef poderia ter ligações com o capitão Adriano.

Pelo que se ventilou, ele poderia até ter ajudado o capitão Adriano na fuga do Rio de Janeiro, o que, nesse caso, se caracterizaria violação do Código Penal, já que havia mandado de prisão contra o então chefe do Escritório do Crime.

Wassef, como já se sabe, tem também uma relação indireta com os cofres públicos.

A empresa de sua ex-mulher, com quem mantém boas relações, já recebeu do governo Bolsonaro mais de R$ 40 milhões por serviços prestados na área de tecnologia da informação.

As pontas desse enredo estão soltas, mas podem compor uma teia, dependendo do rumo das investigações.

Não é demais lembrar que, no fim do ano passado, Jair Bolsonaro viajou para a Bahia, com a filha, a fim de passar o Reveillon.

Mas voltou antes da virada do ano e, depois, em manifestação enigmática, disse que viveu um dos piores dias da sua vida quando chegou à base naval de Aratu.

“Quando eu cheguei na Bahia, enfrentei quatro pepinos. Consegui resolver lá. Um dos piores dias do ano da minha vida foi quando cheguei na Bahia”, disse, se recusando a entrar nos detalhes desses pepinos.

Nesse mesmo dia, o capitão Adriano e a mulher estavam na Costa do Sauípe — o então chefe do Escritório do Crime, procurado pela Justiça.

A distância entre a Costa do Sauípe e a base de Aratu é de 108 quilômetros, pouco mais de uma hora de carro.

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro não pode investigar o presidente da República, mas seria interessante saber se houve algum contato entre Bolsonaro e o capitão Adriano ou sua esposa, direta ou indiretamente.

O que se suspeita é que Wassef, que chegou a dizer que ele e Bolsonaro viraram “uma pessoa só”, sabia onde estava e o que fazia o capitão Adriano, talvez até colaborando com sua sobrevivência no esconderijo, como fez com Fabrício Queiroz.

A situação de Bolsonaro em relação às milícias lembra um exercício com peças de dominó. Muitas peças já caíram, mas na ponta final está o dominó que representa Bolsonaro.

É só seguir a linha do novelo.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!