Único artista brasileiro negro selecionado pela Bienal de Florença abre vaquinha online para ir à Itália

Deivison Silvestre em seu ateliê

O artista plástico Deivison Silvestre, 32 anos, é o único mineiro (e único negro) entre quatro brasileiros selecionados para participar da XIII Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Florença, na Itália, que vai acontecer entre os dias 23 a 31 de outubro.

Essa edição aborda conceitos de feminilidade em arte e design. Se conseguir os recursos necessários, Deivison Silvestre irá expôr três trabalhos. Tudo depende de quanto ele conseguirá arrecadar por meio de uma vaquinha online: https://benfeitoria.com/deivisonsilvestrenabienaldeflorenca2021

Natural de Mariana, o artista autodidata, formado em filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), impressiona pela mistura de delicadeza e brutalidade das imagens que cria, com forte apelo político e social.

DCM: Deivison, não só as obras selecionadas pela Bienal, mas muitos de seus quadros contém representações impactantes da mulher. O que te inspira a criar essas figuras femininas?

Deivison Silvestre: A representação da mulher em minhas obras é uma insistência da memória e dos afetos que guardo conscientemente. Minha mãe, Maria do Carmo de Jesus “Preta” e Eloa do Carmo de Souza “Dona Eloa” são mulheres fortes que se doaram intensamente, para que eu pudesse sobreviver ao cenário perturbador da miséria. Por vezes, eu tive que presenciar o sofrimento e violência que essas mulheres amargaram. Impotente, eu era tomado pela dor de me julgar incapaz de encerrar as forças que nos reduzia à sobrevivência… um pai ausente e dependente químico e um padrasto rude. Já o erótico feminino, por vezes, representado em óleo sobre tela, é uma extensão das minhas paixões, resultado do amor por minha parceira Samilla Lúcia. E a dimensão política das narrativas busca evidenciar a beleza e a dor como resultado distorcido da nossa adoração, que produz sofrimento. 

Sua obra carrega uma constante denúncia social, sobretudo do Brasil miserável. De que maneira a realidade provoca sua arte?

Minhas obras podem ser divididas em dois grupos: psicossocial, que busca expressar a dimensão subjetiva humana e sua articulação racional em negociar seu desejo (falta) no contexto contratual político – o homem político (zoompolitokos); e o grupo psicofisiológico, das expressões humanas que se justificam na angústia, no medo da morte, da dor e prazer. As narrativas que construo mostram a condição humana como um servo da vontade, tendo o paradigma da racionalidade como possibilidade de controle sobre o desespero. Minhas obras são resultado das minhas experiências fenomenológicas e, dessa forma, é coerente que meu olhar esteja voltado para os eventos sociais e políticos nacionais que me cercam, ou seja, a realidade brasileira.

De que forma sua formação em filosofia interage com sua obra?

Minha formação em filosofia foi determinante para a construção do conceito que criei, para explicar meu estilo e meu processo: o de “simiosofia”, em que as obras emergem à consciência após um processo dialético de um determinado recorte social. Uni as palavras símio (primatas = uma alusão às pulsões desmedidas) e sofia (sabedoria = a racionalidade como evidência histórica e não uma condição natural), para apontar o que torna coerente a construção política. A simiosofia se fundamenta no discurso próprio da filosofia. Minha intenção é negar a metanarrativa da arte e seus cânones clássicos, aproximando a filosofia e a arte. 

 

Você é de Mariana, cidade histórica marcada pelo barroco. Isso te influenciou? Quais suas influências artísticas?

A atmosfera da cidade impõe a reflexão em direção à apreciação artística, em que ateliê e arquitetura somam um conjunto notório de riquezas visuais. Fui afetado por isso, certamente. Por vezes, caminhava pelas ruas da cidade, admirando pintores em seu ato de criação, percebendo cores e a harmonia das obras. Crescia com a inclinação às artes até compreender que minhas primeiras criações eram um resultado do meu silêncio diante da vida, por não compreendê-la e, por essa razão, negá-la. Meus estudos em arte me levaram a conhecer grandes artistas que, de alguma forma, atravessam meu trabalho, como Picasso, Dali, Saudek, Zdzistaw Beksinski, Modigliani, Olivier de Sagazan…

É impressionante saber que você é autodidata, quando observamos a maestria dos seus traços. Como foi o seu processo de aprendizagem?

Um grande amigo certa vez me disse: “sua arte é um dom, é quem você é, está na sua medula”. A arte sempre foi meu maior recurso para dizer quem sou e sobre o que penso. O aprimoramento técnico deu-se a partir de uma vida intensa de dedicação, que se desdobrou em reflexões, estudos, experiências, visibilidade – tudo isso retroalimentou meu processo de aprendizagem.

Qual o significado de ser o único artista mineiro e negro selecionado para a Bienal?

Ser o único mineiro traz a responsabilidade de representar grandes artistas regionais, que buscam tornar sua arte instrumento de dignidade; me faz continuar o fluxo da representatividade negra nas artes visuais, adormecido historicamente em Antônio Francisco Lisboa (Aleijadinho), que teve sua cor apagada no tempo, pelas narrativas coloniais. Sendo negro, percebo o quão relevante esse momento é para o quadro de referências históricas de figuras negras, que começam a ocupar lugares restritos (próprios àqueles que não vivem presos ao “mundo do trabalho”) – como tem sido nas artes visuais – e tenho consciência de que isso poderá ressoar na história de outros artistas negros.Qual o papel social e político da arte e como é ser artista num contexto como o atual, sobretudo no Brasil, contaminado por essa onda conservadora, que hierarquiza a cultura e tenta definir o que é ou não digno de admiração?

A arte conduz o espectador à reflexão sobre a condição humana, é um espelho que reflete tormentos e paixões reprimidas pela moralidade. Como artista, exerço papel fundamental nesse contexto político nacional, assim como outros artistas o fizeram noutros momentos históricos – posso citar o expressionismo alemão – , quando assumo a posição de canalizar perspectivas possíveis sobre a vida, num período de posturas conservadoras, discursos inflamados de ódio e ancorados pela religiosidade.

 

Você foi convidado a participar da Bienal de Florença, em 2019, mas não teve dinheiro para ir. Agora, tenta mobilizar doações para a edição de 2021. Faltam políticas públicas de apoio à arte no Brasil?

O contexto atual no país é de paralisação de programas que fomentam a cultura. Faltam não só investimentos públicos, como também participação das empresas em manifestações artísticas diversificadas, para além de nomes consagrados e centros urbanos. A maior parte das verbas das leis de incentivo à cultura ainda ficam nas capitais e sobra quase nada para a riquíssima produção artística do interior.

Ainda não entendemos a força econômica da cultura, o que ela gera em emprego e renda. Como políticas públicas culturais ainda não são eficientes no país, recorremos a iniciativas como a vaquinha online. Atualmente a Produtora Cultural Asante gerencia minha carreira, mas estou à procura de patrocinadores engajados na construção de novas realidades na arte.

Como é sobreviver e resistir pela arte nesse país?

Parafraseando o pensador Nietzsche: “Estar à beira do abismo e ainda ser capaz de dançar”. O triste é conviver com a certeza de que muitos caem e seus “corpos” são recuperados pela história.

O que você espera ao pisar em Florença, berço do Renascimento, com todo esse simbolismo histórico, cultural e artístico?

Espero firmar meu nome e arte na eternidade. Espero contribuir com meu conhecimento artístico, fruto de um trabalho ininterrupto na tentativa de documentar as relações sociais do meu tempo. Ser tomado pela atmosfera de uma cidade referência na construção da história da arte, poder admirar diretamente obras de grandes mestres como Michelangelo, Botticeli, Caravaggio… estou certo de que essa experiência será encantadora – permito-me, aqui, um impulso metafísico para prever esse acontecimento -, e terá grande influência sobre meu processo artístico.