Uruguaios não deixam os torturadores em paz. Por Moisés Mendes

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O coronel Eduardo Ferro, 74 anos, estava preso desde o fim de março em Montevidéu. Ontem, foi libertado e encaminhado à prisão domiciliar. Foi ele quem comandou em Porto Alegre o sequestro de Universindo Rodríguez Díaz e Lílian Celiberti.

O Tribunal de Apelações liberou um dos mais bárbaros torturadores da ditadura uruguaia para que cumpra preventiva em casa. Ferro era capitão e tinha 31 anos quando chefiou o sequestro dos uruguaios, no dia 12 de novembro de 1978.

Lilian e Universindo, militantes de esquerda, fugiram da ditadura e vieram morar clandestinamente em Porto Alegre, na Rua Botafogo, bairro Menino Deus.

Foram levados de volta à força para Montevidéu com os dois filhos dela, Camilo, sete anos, e Francesca, de três, que os militares e policiais sequestradores entregaram depois à avó em Montevidéu. O casal, torturado em Porto Alegre e no Uruguai, só foi libertado em 1984.

Ferro estava foragido da Justiça desde 2017, como réu em um processo por envolvimento no desaparecimento do militante comunista Oscar Tassino, nos anos 80. Viajou para a Espanha e foi preso naquele mesmo ano, mas logo libertado.

O jornal La Diaria, de Montevidéu, conta que o torturador foi preso de novo, em Valencia, em 27 de janeiro deste ano. Deixou pistas de onde estava ao tentar receber na Espanha o valor mensal da aposentadoria e foi pego pela Interpol.

No dia 27 de março, Ferro estava de volta ao Uruguai, como extraditado. Ficou preso 20 dias e agora está em casa. Mas pelo menos é um acossado.

O jornalista Luiz Cláudio Cunha, testemunha da operação clandestina de 1978 em Porto Alegre, contada em detalhes no livro “Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios” (L&PM), lembra que ele era feroz e usava os codinomes Oscar, Guillermo e Toto.

Tinha faixa preta de caratê, era forte, entroncado, com um vasto bigode preto, olhos verdes. No Uruguai, Ferro torturou Lilian e Universindo na Fortaleza de Santa Teresa, um dos pontos turísticos do país.

O coronel assassino é investigado pelo sequestro dos uruguaios e processado pelo desaparecimento de Tassino e deve sofrer outros inquéritos por muitas outras acusações.

Era um dos comandantes da Operação Condor, que integrava as ações articuladas de repressão, perseguição e assassinatos das ditaduras na América do Sul, nos anos 70 e 80.

Em Porto Alegre, agiu em 1978 em conluio com policiais do Dops liderados aqui pelo delegado gaúcho Pedro Seelig, até hoje impune. Seelig esteve a serviço de um torturador uruguaio, dentro do Brasil.

O que seu caso mostra aos brasileiros é que os uruguaios continuam tentando enquadrar torturadores e assassinos da ditadura (1973-1985) em crimes de lesa humanidade, ao contrário do que aconteceu no Brasil.

Apesar da anistia deles (que chamam de Lei da Caducidade, de 1986), uma outra lei, de número 18.831, aprovada em 27 de outubro de 2011, permite a reabertura de casos de lesa humanidade, mesmo que os processos sejam depois questionados e derrubados na Suprema Corte.

O Ministério Público e os juízes de primeira instância conseguem pelo menos constranger os torturadores, como acontece agora com Ferro e muitos outros militares.

A diferença básica em relação ao Brasil é que os policiais brasileiros envolvidos no sequestro dos uruguaios nunca foram ameaçados de punição. E Brilhante Ustra, o mais furioso dos torturadores, é ídolo de Bolsonaro e de Hamilton Mourão.

No Brasil, ditadores e torturadores são exaltados pela extrema direita no poder, algo inimaginável há muito tempo na Argentina, no Uruguai e no Chile.