
O Ministério Público Federal (MPF) abriu um inquérito civil para investigar a responsabilidade da Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, em graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar. A apuração envolve suspeitas de colaboração com o aparato repressivo para vigiar trabalhadores e de participação na remoção forçada do povo Krenak. Com informações do jornal O Tempo.
A investigação é conduzida pelo procurador regional dos Direitos do Cidadão adjunto em Minas Gerais, Angelo Giardini de Oliveira, e tem como base relatórios da Comissão Nacional da Verdade e representações apresentadas por movimentos sindicais. O objetivo é esclarecer a participação da companhia nos mecanismos de repressão utilizados entre 1964 e 1985.
Um dos eixos da apuração é a possível atuação da Vale na chamada Comunidade de Informações Industriais de Minas Gerais (CIG-MG). Segundo os elementos reunidos pelo MPF, a estrutura privada coletava e repassava informações aos órgãos de inteligência da ditadura. O intercâmbio teria permitido o acompanhamento de operários e dirigentes sindicais considerados alvos do regime, criando um sistema de vigilância dentro de fábricas e minas.
O inquérito também investiga a participação da empresa na remoção forçada de indígenas Krenak. Documentos e relatos historiográficos apontam que vagões da Estrada de Ferro Vitória a Minas foram utilizados no transporte coercitivo de integrantes do povo indígena para estruturas de confinamento durante a ditadura.

Entre esses locais estavam o Reformatório Agrícola Indígena Krenak, em Resplendor, e a Fazenda Guarani, em Carmésia, ambos em Minas Gerais. Os espaços ficaram marcados por denúncias de tortura, maus-tratos, restrições culturais e outras violações de direitos fundamentais contra indígenas submetidos ao controle do Estado.
Procurada, a Vale limitou sua resposta a informar que foi privatizada em 1997 e disse que não se pronunciaria sobre o caso. O inquérito do MPF, porém, trata da atuação da antiga Companhia Vale do Rio Doce, empresa que posteriormente passou a se chamar Vale.
A investigação faz parte das ações de Justiça de Transição, voltadas à apuração e reparação de violações cometidas durante regimes autoritários. O MPF sustenta que graves violações de direitos humanos e pedidos de reparação civil ligados a períodos de exceção não são apagados pela passagem do tempo. O inquérito tem prazo inicial de um ano para conclusão.