Vamos esperar por um novo “desastre natural” no rio Madeira?

O artigo abaixo é de Lou-Ann Kleppa, professora de Linguística na Universidade Federal de Rondônia.

Vítimas de construção de usina
Vítimas da usina de Santo Antônio

Um mês depois de me mudar para Santa Maria, a boate Kiss pegou fogo. A primeira coisa que os pais dos adolescentes vitimados fizeram foi procurar os responsáveis pela tragédia. Ainda não se sentem justiçados, mas o incidente fez com que, no Brasil, os alvarás de incêndio fossem fiscalizados com mais rigor: para que o desastre não se repita.

Um ano e um mês depois do incêndio, voltei para Porto Velho casada com o diretor do filme O chamado do Madeira (2008), Luis Fernando Novoa Garzon. Quando chegamos, as margens do rio Madeira já estavam difusas. Em meados de março, pouco antes do pico da cheia, Dilma veio a Porto Velho para afirmar que as usinas não tinham qualquer relação com a enchente e que as chuvas vindas da Bolívia eram as únicas responsáveis pelo “desastre natural”. Um desastre natural não tem culpados ou responsáveis. Mas se as chuvas tinham a ver com desmatamento e o rio Madeira já não era mais um rio natural (mas dois reservatórios seguidos que se estendem da fronteira com a Bolívia até quase Porto Velho), como podia a cheia ser natural?

Assim como no caso da boate Kiss, vários fatores coadjuvantes conduziram ao desastre. Se eu tivesse voltado para São Paulo, eu teria outra história de calamidade envolvendo má gestão da água para contar: assim como a falta de abastecimento de São Paulo não pode ser unicamente atribuída ao clima, a enchente do rio Madeira de 2014 não pode ser explicada apenas pelas chuvas.

No caso do Madeira, havia esperança de que as usinas não seriam construídas, porque o processo de licenciamento ambiental tinha sido escandalosamente irregular e porque as barragens transformariam irreversivelmente o ciclo de vida ligado à bacia do rio Madeira. Para quê? Para produzir energia elétrica que seria transportada para São Paulo. Pois as usinas foram construídas; e assim que a barragem foi concluída, veio a cheia.

Em abril, Luis e eu fomos com um representante do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) a Jacy-Paraná, que agora fica localizada entre as duas usinas. Jacy sofreu impacto ambiental com o reservatório de Santo Antônio e impacto social com a usina de Jirau, que despejou 20 mil homens numa cidade de 4 mil habitantes. Quando chegamos lá, constatamos que não foram só as escolas e igrejas que foram convertidas em abrigo para os desalojados pela cheia: os cabarés da cidade também foram convertidos em abrigo. Com essas fotografias (e filmagens cedidas por colegas), fiz um pequeno filme.

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Por meio de uma Ação Civil Pública, as usinas de Santo Antônio e Jirau foram obrigadas a prestar assistência às populações atingidas pela cheia e a refazer seus estudos de impacto – contratados pelas empresas e considerados insuficientes durante o processo de licenciamento. Como não havia uma lista de nomes de pessoas que pudessem se beneficiar da assistência dos consórcios, ficou mantido apenas o imperativo de refazer os estudos de impacto.

Uma comissão de especialistas independentes (que nunca trabalharam para as usinas, o que foi difícil, especialmente quando se tratou de localizar um ictiólogo que não tenha vendido seu trabalho para nenhuma usina hidrelétrica) foi indicada pela reitora da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e seria nomeada pelo juiz. Ainda não foi. Refazer estudos de impacto significa investigar o papel das usinas na cheia histórica de 2014, significa identificar responsáveis pelo desastre. No caso da boate Kiss, os responsáveis foram identificados, mas nem todos foram punidos.

Em maio, um grande evento, que reuniu mais de 500 pessoas no auditório da OAB, possibilitou o debate com três dos oito especialistas indicados: o biólogo Philip Fearnside, o engenheiro Célio Bermann e a socióloga Edna Castro. Para este evento vieram – de táxi, carona, ônibus e balsa – quatro bolivianos dispostos a registrar esse debate. A câmera que tínhamos à disposição vivia com pouca memória e bateria fraca, além disso tinha como resultado um formato de arquivo que o meu computador não reconhecia.

Quando Carlos Fiengo e Rodrigo Rodriguez ficaram sabendo que a imprensa não podia acompanhar as visitas às usinas, me passaram a câmera deles e me desejaram suerte. Filmei o interior das usinas como quem pousa na lua. Entendemos que esse material era o diferencial de todos os outros filmes sobre a cheia, porque eram sobre a cheia, não sobre as causas coadjuvantes da cheia.

Aos poucos, o filme que era para se chamar O silêncio do Madeira foi começando a discutir os problemas trazidos pela cheia: o Sistema de Transposição de Peixes (STP) de Jirau foi destruído, o de Santo Antônio não funciona; o que implica no extermínio dos peixes migradores. Estes bagres desovavam acima da Cachoeira de Santo Antônio (onde hoje está instalada a usina de Santo Antônio) ou de Teotônio (naufragada pelo reservatório de Santo Antônio), se desenvolviam em lagos que se comunicavam com o rio e voltavam para a correnteza do rio.

Agora, os peixes do reservatório de Santo Antônio que sobreviverem à coleta e transporte (de caminhão) até o reservatório de Jirau e os que conseguirem passar pelo STP de Santo Antônio não terão onde desovar, porque tudo é igual no reservatório – e não terão como voltar, a não ser passando pelo vertedouro ou pelas turbinas. Além disso, o argumento em favor das usinas a fio d`água (não forma lago, nem precisa de queda d´água) ia se esvaindo: as usinas tinham enormes reservatórios (que aumentaram mais ainda com a cheia) e a geração ótima de energia depende de uma queda de 20m.

Por fim, a disputa entre as duas usinas pelo aumento de cotas justamente no pico da cheia nos levou a pensar em termos não apenas de silenciamento, mas de omissão de responsabilidade pela gana de gerar lucro e pelo experimento ao qual a população do entorno está submetida: o rio Madeira é o mais caudaloso, as turbinas são as maiores, nenhuma hidrelétrica tem tantas turbinas tão potentes.

Numa noite, sonhei que os editores de jornal decidiram não publicar nenhuma propaganda publicitária em seus jornais e queriam mostrar ao leitor de jornal como são reféns da cultura consumista. Publicaram as notícias onde era o lugar das notícias e deixaram o resto vazio. Em seguida, Renata Nóbrega apareceu com a proposta de escrevermos um capítulo para um livro intitulado Barragens e Comunicação.

Fui ao jornal local e me concentrei nas manchetes publicadas durante e depois da cheia. Fiquei surpresa ao reconhecer que a cheia tinha sido transformada praticamente em personagem: a cheia expulsa, desaloja, destrói. As causas da cheia não eram abordadas; e as usinas eram sequer mencionadas nos jornais. Na mídia, a cheia preenchia um grande vazio de informação. Entre a cheia e o vazio.

Foram chegando imagens, audios e ideias de várias pessoas. Inscrevemos o filme no Fest Cine Amazônia (em que recebemos o prêmio de Melhor Produção Rondoniense) e no CineCeará (em que nem fomos selecionados). Uma semana antes do Fest Cine Amazônia, organizamos uma pré-estreia com debate na universidade (UNIR) e convidamos representantes de comunidades ribeirinhas para darem seus depoimentos. Em seguida, recebi e-mail de uma suposta jornalista contratada por Jirau. Mas o remetente do e-mail era Usina Hidrelétrica de Jirau… Ela pedia uma cópia do filme antes da estreia no festival. Respondi que eu daria uma cópia depois da estreia, ela insistiu: “Para ter acesso ao conteúdo”.

Depois do festival, ela cobrou a cópia dela – ou seja, não foi no festival, ver o conteúdo. Agora estamos esperando ser processados pela Jirau. Ou pela Santo Antônio, que recentemente colocou na rede de TV local uma propaganda de um livro (publicado em 2013) patrocinado pela Santo Antônio sobre os peixes inventariados antes da implantação da usina. Na propaganda, fala-se da maravilhosa diversidade de peixes, silenciando o cinismo de que a própria usina os condenou.

Há estudos anunciando uma nova cheia maior que a anterior. E não precisa chover muito para que isso aconteça, já que o lençol freático está alto (a hipótese é que se forme um grande lago depois da barragem, a jusante) porque a água não está sendo drenada em tempo. Onde a cheia entrou na mata pelos igarapés, as árvores morreram e estão sendo derrubadas pelos ventos. Muitas das pessoas desabrigadas pela cheia continuam vivendo em barracas de lona porque perderam tudo, até a dignidade. Por onde a cheia passou, a Defesa Civil marcou seu X vermelho e condenou as comunidades ribeirinhas como “área de risco”.

Entre a cheia e o vazio não se preocupa em apresentar respostas, mas lançar a dúvida: nada disso importa? Vamos esperar por um novo “desastre natural”? Vamos permitir que novas hidrelétricas sejam construídas na Amazônia? Enquanto a mídia corporativa silencia sobre os nexos entre a cheia e as usinas, divulgamos, através desse registro, o que foi possível acompanhar com a câmera na mão.

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