Vantagem nas pesquisas não garante a vitória. A militância, sim. Por Edward Magro

Atualizado em 21 de outubro de 2026 às 18:52
Janones e Lula. Foto: Divulgação

O avanço de Lula nesta reta final deve inspirar confiança no campo democrático, mas também exige atenção redobrada. Quando uma candidatura autoritária percebe que pode perder, seus dirigentes e aliados econômicos nem sempre se resignam à decisão dos eleitores. Podem, ao contrário, intensificar os esforços para alterar o rumo da disputa, mobilizando recursos financeiros, operações de comunicação e instrumentos digitais cuja influência nem sempre é perceptível ao público. Quanto mais próxima parece uma derrota estratégica da extrema direita, maior pode ser sua disposição para evitá-la a qualquer custo, inclusive alimentando episódios de ruptura como os ataques de 8 de janeiro.

Essa é a contradição que precisamos compreender nestes últimos dias. Uma conjuntura favorável não autoriza o descanso; exige lucidez. A perda de fôlego de um adversário não significa que ele tenha perdido os meios de agir. Popularidade, capacidade de mobilização, dinheiro e domínio tecnológico são forças distintas, que nem sempre avançam na mesma direção. Lula pode crescer nas ruas enquanto seu adversário, inimigo dos interesses populares, amplia os investimentos em outras frentes. Confundir essas duas realidades é um erro que a militância não pode cometer.

Uma campanha não se decide apenas pela qualidade das propostas ou pelo número de pessoas que comparecem a um ato. Depende também da capacidade de fazer uma mensagem chegar ao eleitor, responder a dúvidas, disputar interpretações e transformar apoio potencial em voto. É nessa passagem entre a simpatia e a decisão que os últimos dias podem fazer a diferença a nosso favor. Temos capacidade de dialogar, argumentar e convencer. Precisamos mobilizar essa força até o último momento.

No Brasil, a distância entre apoio popular e poder econômico aparece com particular nitidez. Enquanto Lula amplia sua presença nas ruas e reúne multidões em diferentes regiões do país, os endinheirados concentram recursos na candidatura de Flávio Bolsonaro. Segundo os dados de arrecadação divulgados nesta semana, são 27 reais destinados à candidatura bolsonarista para cada real doado à campanha de Lula.

Vinte e sete para um. A diferença merece mais do que espanto. Merece reflexão. Entre os endinheirados, Flávio Bolsonaro vence com folga. Por 27 a 1.

O dinheiro não determina automaticamente a escolha de ninguém, mas financia recursos que fazem diferença: profissionais especializados, produção contínua de conteúdo, publicidade, análise de dados, segmentação de públicos e capacidade de manter mensagens em circulação. Não compra necessariamente a convicção do eleitor, mas pode disputar sua atenção por muito mais tempo.

A desigualdade, portanto, não está apenas no volume das doações. Está também nas condições materiais de participar da formação da opinião pública.

Quando parcelas do poder econômico percebem que seus interesses podem ser contrariados pela mobilização popular, tendem a intensificar sua intervenção. Quem acumulou recursos e influência procura preservá-los, e a política oferece instrumentos para esse propósito.

Os personagens mudam, as tecnologias se aperfeiçoam, mas certas fórmulas continuam à disposição de quem considera mais conveniente desqualificar o adversário do que discutir as consequências das próprias propostas. A modernização dos instrumentos não aperfeiçoa necessariamente o debate público. Às vezes, apenas permite que velhos métodos cheguem mais depressa e a mais gente.

As ruas continuam fundamentais. A televisão, o rádio, a imprensa e o contato direto também conservam sua importância. As plataformas digitais, porém, permitem testar mensagens, identificar públicos, adaptar conteúdos e distribuir informações em larga escala, com uma velocidade que altera as condições da disputa eleitoral.

Uma mensagem pode ser formulada de maneiras distintas para grupos diferentes. Uma alegação falsa pode circular por redes de contas que simulam representar pessoas comuns. Uma mesma narrativa pode reaparecer tantas vezes, em tantos lugares, que o eleitor acabe confundindo repetição com confirmação. A tecnologia não inventou a mentira política, mas permitiu organizá-la, direcioná-la e distribuí-la com uma eficiência que exige respostas à altura.

Flávio Bolsonaro. Foto: Divulgação

A profissionalização digital da campanha de Flávio Bolsonaro merece, por isso, atenção especial. A campanha declarou ao Tribunal Superior Eleitoral pagamentos à empresa estadunidense Elytron, especializada em mapeamento clandestino de eleitores, operação de redes de contas falsas e disseminação de desinformação. Mantém, ainda, contratos milionários com empresas especializadas em dados e operadores digitais, a exemplo das práticas da Cambridge Analytica na campanha de Trump, em associação com a Meta. Essa infraestrutura confere à campanha de Flávio uma capacidade de intervenção muito superior à sugerida por seus rostos mais conhecidos. Pablo Marçal, Nikolas Ferreira e outros influenciadores extremistas são animadores de auditório, palhaços de picadeiro encarregados de entreter a plateia, não de definir a estratégia. Enquanto essas cheerleaders agitam os pompons, nos bastidores, empresas muito bem remuneradas conduzem um trabalho profissional e organizado de segmentação, distribuição e circulação de conteúdo.

Compreender essa estrutura é essencial para avaliar a dimensão real da disputa. A experiência latino-americana recente recomenda cautela. Vantagens eleitorais podem diminuir, candidaturas podem perder terreno e narrativas cuidadosamente construídas podem alterar a percepção pública em poucas semanas. A Colômbia e outros países da região oferecem experiências que merecem exame; a influência econômica e política dos Estados Unidos na América Latina tem uma história documentada.

Há uma diferença fundamental entre os recursos disponíveis aos dois campos. O dinheiro pode contratar velocidade, alcance e especialização. A militância precisa conquistar confiança, algo que não se produz por encomenda. Ela nasce da capacidade de falar sobre os problemas concretos que afetam a vida das pessoas.

Isso não significa idealizar o trabalho militante. Repetir os mesmos argumentos entre pessoas que já concordam conosco pode gerar muito movimento e pouco resultado. Compartilhar uma publicação no mesmo círculo de apoiadores pode criar a impressão de que a mensagem chegou a todos, quando talvez nem tenha alcançado quem ainda está em dúvida. A tarefa decisiva é ampliar o alcance, identificar resistências, escutar sem arrogância e apresentar razões que façam sentido para quem ainda não decidiu.

É preciso reconhecer, também, que nem toda conversa termina em convencimento. O eleitor não é um destinatário passivo à espera da mensagem correta, e ninguém muda de opinião apenas porque alguém lhe explica, com grande segurança, por que deveria mudar. A militância eficaz não trata as pessoas como obstáculos a vencer, mas como cidadãos capazes de avaliar argumentos, expor dúvidas e fazer escolhas. Firmeza política e respeito não são incompatíveis. O respeito pode abrir portas que a arrogância fecha.

A eleição continua aberta. As pesquisas indicam tendências, mas não depositam votos nas urnas. As manifestações demonstram capacidade de mobilização, mas não substituem o voto. A arrecadação revela desigualdades de recursos, mas não determina a escolha dos cidadãos. Cada indicador oferece um retrato parcial; o resultado depende de como essas forças se combinam e de quantas pessoas comparecem para votar.

Não há razão para a euforia antecipada nem para o desânimo. A desigualdade de recursos é real, mas não anula a ação coletiva. A profissionalização das campanhas adversárias impõe desafios, mas não impede a organização popular. A desinformação exige respostas rápidas, sem dispensar o trabalho paciente de conquistar credibilidade.

Recomendo, por isso, participar do Exército de Lula, coordenado pelo deputado André Janones. A iniciativa busca reunir apoiadores, aproximar militantes e organizar ações nos dias decisivos. O essencial é transformar o apoio a Lula em participação concreta e coordenada. As orientações para participar estão no Instagram do deputado.

Não é preciso que cada militante faça tudo, mas que cada um contribua como puder. Uma conversa pode chegar a quem as redes não alcançam; uma informação bem explicada pode desfazer suspeitas; alguém decidido a votar pode estimular outras pessoas a fazer o mesmo. A força coletiva nasce da reunião de milhares de iniciativas individuais em torno de um objetivo comum.

A extrema direita pode dispor de mais dinheiro, profissionais especializados e recursos tecnológicos sofisticados. Isso não lhe garante a iniciativa nem o resultado. A vantagem democrática tampouco se converte sozinha em vitória. É preciso organizá-la e transformá-la em participação. A oportunidade está diante de nós, mas depende do que fizermos com ela.

Faltam poucos dias para a decisão. Não é hora de agir como se a vitória estivesse garantida, nem de aceitar como inevitável uma derrota favorecida pela desigualdade de recursos. É hora de concentrar esforços, cuidar da qualidade das informações, ampliar as conversas e mobilizar mais pessoas. Menos ansiedade, mais organização; menos expectativa, mais ação.

Falta pouco tempo, mas ainda há muito a fazer. Cada voto precisa ser conquistado. Cada pessoa mobilizada pode alcançar outras. Cada esforço, por modesto que pareça, pode contribuir para o resultado coletivo. A campanha não terminou, e tampouco terminou a responsabilidade de quem deseja a vitória democrática.
A hora de agir é agora. Não porque a vitória esteja garantida, mas porque ela ainda depende, em parte, do que fizermos até o dia da votação.