Vargas, Lula e a transferência de voto. Por Gilberto Maringoni

Lula e Vargas (Foto: Reprodução)

Estou acompanhando a polêmica sobre o possível toque de Midas de Getúlio Vargas, nas eleições presidenciais de 2 dezembro de 1945. Apesar de defenestrado do poder, em 29 de outubro daquele ano, o presidente mantinha ampla preferência entre os setores populares. Sua declaração de apoio a Eurico Gaspar Dutra (PSD-PTB) no final de novembro teria garantido a folgada vitória de seu sucessor sobre Eduardo Gomes (UDN).

O lendário gesto serve de argumento para os que defendem a tese de que Lula deve ser mantido candidato até o limite – duas semanas antes das eleições – para, só aí, Fernando Haddad assumir a titularidade da campanha. Um novo toque de Midas instantâneo resolveria a parada.

Parece-me tática arriscada.

Não tenho nenhuma dúvida sobre a ascendência decisiva de Lula nessas especialíssimas eleições. Minhas hesitações estão com o cronômetro. É difícil avaliar se, em quinze dias, quando as forças políticas e as intenções de voto estiverem mais definidas, a transposição será feita sem sobressaltos.

Reza a lenda que Vargas teria, em cinco ou oito dias, desequilibrado a disputa em favor de Dutra, na boca das eleições. Não disponho de informações seguras sobre um lado ou outro. Há historiadores que garantem a instantaneidade da declaração do ex-mandatário e outros que dela duvidam. A declaração de fato ocorreu. Mas àquela altura é possível que a máquina de prefeitos que se perfilavam ao lado de Dutra (e que viriam a se filiar ao nascente PSD) já tivesse definido a parada.

Mas, objetivamente, a idéia de que o pai dos pobres teria, com uma simples declaração, alterado o curso dos acontecimentos em tão pouco tempo soa pouco plausível. Arrolo aqui algumas preocupações que sustentam minha desconfiança:

1. O eleitorado brasileiro em 1945 era de 5.843.930 pessoas, desigualmente distribuídas pelo território. São Paulo detinha o maior contingente (1.353.445), seguido do Distrito Federal (489.461) e Minas Gerais (834.979). Dutra teve mais da metade dos votos dos paulistas (780.546), num estado em que a figura de Vargas era francamente hostilizada pela elite dominante, edos mineiros (478.503), região amplamente que viria a ser dominada pelos prefeitos do PSD. Dutra (PSD-PTB), como se sabe, venceu com 3 251 507 votos, ou 55,39% do total. Eduardo Gomes (UDN) alcançou 34,74% e Iedo Fiuza (PCB) alcançou 9,71% (https://seculoxx.ibge.gov.br/…/rep_polit1941_45m_aeb_124_1.…)

2. As eleições de 1945 englobavam as disputas para a presidência da República, Senado e Câmara Federal. Essas últimas apresentaram os seguintes resultados: PSD – 52,8&, UDN – 28,67%, PTB – 7,69% e PCB – 4,89%. As eleições municipais aconteceriam apenas no ano seguinte, mas os votos proporcionais se aproximam muito dos sufrágios presidenciais, embora sejam pleitos com características distintas.

3. É muito difícil aferir o potencial de transferência de votos de Vargas a Dutra, uma vez que não foi realizada nenhuma pesquisa de intenção de votos de abrangência nacional à época. O primeiro instituto a trabalhar com bases científicas reconhecidas internacionalmente por aqui foi o IBOPE (1942). A única sondagem foi realizada na capital de São Paulo, que indicou a vantagem de Eduardo Gomes sobre Dutra na cidade (67% contra 33% a favor do primeiro). (http://www.abep.org/historia-da…/primeiras-empresas-pesquisa).

4. Em geral, analogias históricas são tremendamente arriscadas. Não se trata apenas de que os processos acontecem “da primeira vez como tragédia e da segunda como farsa”. A questão é que correlações de forças, interesses, choques distributivos e organizações políticas e sociais são irrepetíveis. Valer-se de uma situação em que o Brasil tinha – segundo o Censo de 1940 – 41,2 milhões de habitantes (20% da população atual) majoritariamente estabelecidos no meio rural e transpô-la mecanicamente para a atualidade significa sair do terreno do risco estatístico e adentrar o terreno do chute puro e simples.

5. Uma observação final. Muitos partidários da transferência de votos de Lula para Haddad advogam a idéia de uma operação instantânea. Os extremados falam em “questão de horas”.

6. OK, pode ser, mas ninguém apresenta bases empíricas para tal afirmação. Sem entrar em maiores polêmicas, pode-se até aceitar o hipotético fenômeno, dada a capilarização das informações via TV, rádio e redes sociais, que atingem – somadas – praticamente todo o território nacional. Lembremos, contudo que o panorama era bem outro há 73 anos. Tratava-se de um país de distânncias continentais, com precárias redes de comunicação e transporte, inexistência do rádio portátil e com 56% de sua população analfabeta (IBGE, Censo 1940). Propagar a informação do apoio de Vargas em uma semana e fazer dela uma idéia-força capaz de virar milhões de votos é algo um tanto implausível.

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