“Vermes na comida, falta de água e mofo”: líderes de greve denunciam descaso total da USP

Atualizado em 23 de abril de 2026 às 17:12
Barricadas montadas por estudantes e funcionários da USP em greve. — Foto: RAUL LUCIANO/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Por Miguel Worcman, escritor, repórter e estudante de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

A USP (Universidade de São Paulo) está em greve desde o dia 14 de abril, em uma paralisação conjunta de alunos e funcionários. Líderes do movimento estudantil denunciaram com exclusividade ao DCM o descaso da faculdade em relação ao corpo discente e aos trabalhadores.

O Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) convocou a paralisação dos funcionários após o Conselho Universitário criar um bônus de R$ 4,5 mil mensais para docentes, pelo período de dois anos. Os funcionários técnico-administrativos defendem que o valor seja distribuído entre todos eles, o que representaria cerca de R$ 1.600 para cada um.

Daniel Lustosa, estudante de Relações Internacionais e morador do Conjunto Residencial da USP (CRUSP), descreveu as condições extremamente precárias de serviços básicos da universidade, um dos principais motivos que levaram à greve.

“Desde fevereiro há pautas fortes relacionadas à estrutura. Moradores do CRUSP fizeram mobilizações por falta de água e falta de vagas, houve casos de estudantes dormindo no chão. Existem problemas estruturais graves, como mofo, infiltrações e cozinhas coletivas inutilizáveis”, afirma Daniel, que também é membro do DCE (Diretório Central dos Estudantes), entidade máxima de representação estudantil da USP.

Os alunos denunciam ainda a má qualidade dos serviços de alimentação, conhecidos como “bandejões”. Foi relatada a presença de larvas e até vidro na comida. Em nota nas redes sociais, o DCE reforçou: “Só saímos com conquistas concretas. Uma universidade rica beneficiar apenas uma categoria não é normal. Os estudantes comerem larva, barata, vidro, não é normal. Paramos para que a USP seja, de fato, de qualidade e para todos”.

Larvas na comida servida na Faculdade de Direito da USP. Foto: Reprodução.

Ao longo da semana, assembleias foram realizadas em diferentes unidades para deliberar sobre a adesão, já aprovada em ao menos 15 faculdades e institutos, com apoio do DCE. Alunos da Escola Politécnica, historicamente contrários aos movimentos grevistas, também aderiram a paralisação por meio de uma votação. Entre as reivindicações estudantis estão a ampliação das políticas de permanência, com aumento no valor das bolsas.

Outra pauta central é a defesa dos espaços estudantis, cuja autonomia estaria ameaçada por uma minuta em discussão nas instâncias internas da universidade, que prevê a regulamentação do uso desses locais por centros acadêmicos.

“Essa proposta prevê cobrar contas de água e luz dos centros acadêmicos para que possam permanecer nos espaços, além de proibir atividades comerciais vinculadas a eles. Isso é tanto uma violação do direito à livre organização política e cultural dos estudantes quanto um ataque financeiro ao movimento estudantil, que se sustenta em parte por essas atividades. Também existe a possibilidade de suspensão do uso dos espaços a qualquer momento pela reitoria, sem necessidade de justificativa”, comenta Daniel.

Piquete realizado por estudantes em frente a sala de aula da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP). Foto: Miguel Worcman

Em nota, a reitoria, junto às pró-reitorias de Graduação, Inclusão e Pertencimento e Cultura e Extensão, afirmou que a USP não tem a intenção de limitar ou retirar a atuação das entidades estudantis, nem de impedir o uso de espaços tradicionalmente ocupados por elas. Segundo o posicionamento, o que a minuta visa é um processo de formalização da cessão de uso desses espaços, com o objetivo de “garantir maior segurança jurídica, transparência e conformidade com a legislação aplicável ao patrimônio público”.

A greve dos estudantes se soma à paralisação dos trabalhadores da USP iniciada no mesmo dia. De acordo com os servidores, o reajuste exclusivo para professores universitários fere o princípio de isonomia dentro da universidade. “Os trabalhadores entraram em greve por conta de demandas que estavam há muito tempo represadas, mas a gota d’água foi a aprovação dessa gratificação para os docentes universitários”, afirma Eduardo de Faria Carniel, professor da Escola de Aplicação da USP e delegado do comando de greve.

Segundo Carniel, o benefício representa um montante de R$ 238 milhões. “A universidade disponibilizou esse valor com a alegação de estimular projetos de extensão. Mas o que não se considera é que os docentes não trabalham sozinhos. Esses projetos dependem do trabalho dos técnicos-administrativos, que sustentam o funcionamento da universidade e, para eles, não foi oferecido nada”, critica.

Até o momento, a reitoria só manteve diálogo com representantes do Sintusp, mesmo após a adesão à greve pelos estudantes. A administração recusa se reunir com representantes estudantis. Em assembleia realizada nesta quarta-feira (22), os funcionários decidiram que a negociação com a reitoria precisa incluir, obrigatoriamente, as exigências do movimento estudantil.

Trabalhadores e estudantes da universidade em ato no dia 14, primeiro dia das paralisações.
Foto: Reprodução.

Outra demanda diz respeito ao regime de horas de trabalho. Atualmente, os servidores precisam registrar presença por meio de ponto eletrônico, o que gera distorções em feriados e recessos: como não há registro nesses dias, as horas deixam de ser contabilizadas e precisam ser compensadas posteriormente. Os trabalhadores também reivindicam melhores condições para terceirizados, como funcionários da limpeza e dos restaurantes universitários, incluindo acesso ao transporte gratuito no campus e o fim da escala 6×1.

Também está na pauta o fim dos chamados “parâmetros de sustentabilidade”, mecanismo que funciona como um teto de gastos da universidade, mesmo diante de um caixa estimado em cerca de R$ 8 bilhões.

A greve conjunta dos trabalhadores e estudantes acontece em um contexto mais amplo de reformas na educação e nos serviços públicos. Exemplos dessas medidas são as recentes transferências da administração de escolas públicas para entidades privadas realizadas pelo governador do estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o corte de quase R$ 500 milhões em orçamento das universidades federais para 2026 aprovado pelo Congresso.

Neste cenário, Eduardo Carniel destaca a necessidade de uma mobilização coletiva. “Nossa luta faz parte de uma luta maior dos trabalhadores da educação no Brasil. Queremos garantir que a educação pública não seja tratada como mercadoria e que haja valorização de quem faz a universidade funcionar. Existe uma pressão crescente de políticas neoliberais nos serviços públicos, tanto no estado quanto no país. Por isso, é fundamental a mobilização coletiva. A luta é uma só e ainda temos muito a conquistar”.

Nesta quinta-feira (23), está prevista uma manifestação que partirá do portão da universidade em direção à Avenida Faria Lima. O ato, convocado pelo DCE, tem como principal objetivo “denunciar a precarização vivida pela universidade”.

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