Versão de Wassef publicada na Veja não cola: entenda por que querem enganar você de novo. Por Joaquim de Carvalho

Wassef. Foto: Fabio Motta/AFP

O advogado Frederick Wassef teve dez dias para encontrar uma explicação que fosse, no mínimo, razoável para esconder Fabrício Queiroz em um imóvel de sua propriedade.

E o que ele disse à revista Veja não parece razoável: a versão é confusa, e complica ainda mais a situação de Flávio Bolsonaro, ainda que ele tente isentá-lo de responsabilidade.

Primeiramente, Wassef diz que ofereceu a casa em Atibaia por razões humanitárias. Como já teve câncer, entendeu as dificuldades de Queiroz e, apesar de não conhecê-lo, decidiu ajudar.

Seria, portanto, uma atitude humanitária.

Na mesma entrevista, diz que escondeu Queiroz por ter recebido a informação de que ele seria assassinado e a responsabilidade seria atribuída a Bolsonaro.

Nesse caso, agiu para proteger Queiroz e também Jair Bolsonaro. Por que fez isso? “Eu amo o presidente”, declarou.

O sentimento íntimo de Wassef é o que menos importa nesse caso, já que se poderia estar diante de um crime, o de obstrução de justiça.

Senão, vejamos:

Queiroz era (e é) investigado pelo Ministério Público por desvio de dinheiro da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Flávio Bolsonaro também era (e é) investigado no mesmo caso.

Queiroz é suspeito de ser um operador do então deputado estadual.

Segundo a investigação, o dinheiro era desviado dos salários dos assessores por Queiroz, mas não ficava com ele — pelo menos na maior parte.

Ia para a conta de Flávio Bolsonaro ou era usado para pagar as suas despesas pessoais.

Queiroz nunca foi interrogado sobre os fatos.

Há um ano e meio, se manifestou por escrito ao MP, deu entrevista ao SBT, foi internado no Albert Einstein em São Paulo para uma alegada cirurgia de retirada tumor cancerígeno no intestino e desapareceu.

Em agosto do ano passado, ele fez uma breve aparição, na capa da revista Veja, em uma reportagem que publica pelo menos uma informação mentirosa.

O texto registra que Queiroz estaria morando no bairro do Morumbi, em São Paulo, em razão da proximidade com o Einstein.

Como se sabe agora, Queiroz já estava abrigado em Atibaia. Quem ajudou a montar essa farsa? Wassef.

Na época, já chamava a atenção que as fotos publicadas pela revista eram consentidas.

Ele aparecia chegando ao hospital, depois sentado no cafezinho, e nenhum registro de tentativa de abordagem por repórter.

Hoje já se pode dizer, com segurança, que a notícia foi plantada. Alguém queria evitar que o foco se deslocasse para Atibaia.

E por que, do ponto de vista jurídico, era importante evitar associar o esconderijo de Queiroz a Wassef?

Porque isso pode ser interpretado como obstrução de justiça, ou seja, manter sob controle um investigado que, falando, poderia incriminar Flávio Bolsonaro.

Wassef pode dizer o que quiser, inventar a história mais delirante, mas um fato é inegável: ele era advogado de Flávio Bolsonaro.

No caso, agindo, representava o senador, seja no contato com testemunhas ou com outros investigados.

É preciso verificar se Wassef violou o artigo 329 do Código Penal, que diz:

Impedir, embaraçar, retardar ou de qualquer forma obstruir cumprimento de ordem judicial ou ação de autoridade policial em investigação criminal:

Pena: detenção de 1(um) ano a 3(três) anos, e multa.

Parágrafo único. A pena é aumentada de um terço se a ordem judicial ou a ação policial não se realizam em razão da obstrução.”

Como se já antecipasse sua linha de defesa, Wassef lembrou na entrevista a Veja que Queiroz não era indiciado.

Sim, não era indiciado, mas era investigado e, nesse caso, pode ser alcançado pelo artigo 329: impedir, embaraçar, retardar ou de qualquer forma obstruir cumprimento de ordem judicial OU (esse ou é importante) “AÇÃO DE AUTORIDADE POLICIAL EM INVESTIGAÇÃO CRIMINAL”.

Criminalistas entendem que um advogado não pode ser criminalizado no exercício de sua atividade profissional.

Verdade.

Mas ele tinha procuração de Queiroz? Não.

Tinha de Flávio Bolsonaro e, escondendo o coinvestigado ou dificultando a investigação da polícia ou mantendo-o sob seu domínio, favorecia Flávio e dificultava a investigação.

Fora dessa interpretação, é acreditar que ele, realmente, agiu por altruísmo ou por amar Jair Bolsonaro, cujo governo já liberou mais de 40 milhões de reais para a empresa de sua ex-mulher.

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