
Em uma entrevista ao podcast Três Irmãos, Guilherme Boulos, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, desceu a lenha com classe em um segmento da esquerda que ele descreve como “academicista ou lacrador”. Boulos defendeu uma abordagem de radicalismo pautada na ação prática e na conexão com a realidade do povo, em contraste com o que ele chama de “revolucionários de apartamento”.
Sem citar nomes, Boulos iniciou sua fala criticando uma parcela da esquerda que se posiciona como uma “consciência crítica” ou “superego” do movimento. Segundo ele, essa turma se dedica a apontar os erros da esquerda “real, popular, que disputa de verdade”, mas sem efetivamente construir base ou mobilizar pessoas.
“É uma turma que se comporta como se fosse uma consciência crítica da esquerda, um superego da esquerda. Então, o trabalho principal é você ficar falando o que que a esquerda não faz, onde a esquerda erra, onde a esquerda real, a esquerda popular, a esquerda que disputa de verdade, não é? É uma consciência crítica, uma testemunha da história que fica ali dando aulas de saber do que que a esquerda deveria fazer. Só que só prega para convertido, é uma vanguarda muito aguerrida, só que sem nenhuma retaguarda, é o general sem exército”, disse.
Ele enfatizou que esses críticos, muitas vezes, “não botam dez pessoas na rua, não convencem o vizinho das suas posições” e se “regozijam” por serem os “mais revolucionários”, pois não precisam lidar com a complexidade da “vida real”.
Radicalismo na prática versus pureza teórica
Para Boulos, a vida real é feita de contradições e negociações, em que a postura purista de “tudo ou nada” ou “socialismo ou traição” é inviável. Ele citou exemplos de sua atuação no MTST, em que a negociação por bolsa-aluguel ou moradia com governos, inclusive de direita, era uma necessidade para quem vive em situação de vulnerabilidade.
“Ser radical não quer dizer ser inconsequente, ser irresponsável com a história. Então, eu eu sou a mesma pessoa, cara, que há 25 anos atrás foi organizar movimento sem-teto e bateu de frente com tropa de choque, a mesma. Não me arrependo de uma vírgula”, afirmou.
Ele argumentou que o verdadeiro radicalismo reside em ações concretas que transformam a vida das pessoas, como organizar cozinhas solidárias na periferia e promover a formação política popular, em vez de apenas “escrever dez livros ou gravar 100 vídeos vomitando socialismo a cada dez palavras”.
5 minutos de Boulos destruindo a turma do “sou mais esquerda que você”. pic.twitter.com/0hR1NWsUdu
— Pensar a História (@historia_pensar) February 9, 2026
Boulos também abordou a atuação do presidente Lula na geopolítica mundial, destacando-o como o “único cara que bateu de frente com o Trump”. Ele criticou a tendência de alguns setores da esquerda de ignorar a realidade da consciência popular, a força da extrema-direita e o papel do Congresso, transformando a pauta em uma “lista de desejos” desconectada da prática política.
Ao final da entrevista, Boulos reafirmou sua trajetória de luta e posições políticas, sempre ao lado do povo, e defendeu cada passo de sua história. Ele ressaltou a importância de um debate honesto sobre as diferenças na esquerda, sem caricaturas, e a necessidade de construir uma esquerda “real” capaz de mobilizar e disputar o poder, inclusive em eleições, contra a extrema-direita.
“Porque acho que o movimento social é a coisa que mais fortalece uma democracia”, diz.