
A escassez de água em São Paulo entrou na pauta do telejornal local da Rede Globo a partir de uma abordagem que chamou atenção. A reportagem do SP1 foi aberta com a frase: “A conta de água mais cara pode ajudar a frear o consumo, porque o saldo deixado por 2025 é muito preocupante.”
O problema do desabastecimento, no entanto, apareceu sem ouvir consumidores afetados nem detalhar os impactos do aumento da tarifa. Durante a matéria, não houve entrevistas com moradores que ficaram sem água no Natal e no Réveillon na Grande São Paulo.
Ela desconsidera os aumentos abusivos no valor das contas e a imoral privatização organizada pelo governador Tarcísio de Freitas. O enfoque recaiu sobre o consumo da população, apresentado como o principal fator da crise. “São Paulo, gente, nunca consumiu tanta água, foi um recorde”, afirmou a reportagem, atribuindo à demanda doméstica a pressão sobre o sistema.
Outro dado tratado de forma positiva foi o aumento da captação de água pela Sabesp. No site do programa, a chamada destacou: “Sabesp bate recorde de captação em 2025”. A informação sobre o reajuste de 6,11% na conta de água não foi mencionada com o mesmo destaque.
“A conta de água mais cara pode ajudar a frear o consumo, porque o saldo deixado por 2025 é muito preocupante.” É assim que começa a reportagem na Globo, que desconsidera o fato que diversas famílias ficaram sem água no natal e réveillon. Chocante! pic.twitter.com/Q5fYj1FblD
— Senhora RIVOTRIL🚩❤️ (@SRivoltril) January 2, 2026
Especialistas alertam que o aumento da captação, longe de ser apenas um indicador positivo, pode acelerar o esvaziamento dos reservatórios. Estudos apontam risco de repetição de um cenário semelhante ao de 2014, quando São Paulo recorreu ao chamado Volume Morto para garantir o abastecimento.
Para administrar o sistema, a Sabesp reduziu a pressão da água em pelo menos duas ocasiões. A medida faz com que a água não chegue a áreas mais altas, deixando bairros inteiros sem fornecimento regular por dias seguidos.
O governador Tarcísio de Freitas, responsável pela privatização da Sabesp em julho de 2024, não foi citado na reportagem. À época, ele afirmou que não haveria risco de crise. “Não vai ter apagão da água… Quem fala isso desconhece absolutamente tudo”, declarou.
A situação levou o Procon de Ferraz de Vasconcelos a notificar a Sabesp em 30 de dezembro. O órgão relatou moradores há dias sem água, falta de informações claras e impactos inclusive sobre crianças, exigindo explicações em até 36 horas.