
Guilherme Boulos, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, criticou nesta terça-feira (12) a reação de bolsonaristas em defesa da Ypê após a Anvisa suspender lotes de produtos da marca por risco sanitário. A declaração foi feita em entrevista ao “Bom Dia, Ministro”, do Canal Gov.
“Isso diz muito sobre a estupidez de um campo político no Brasil”, afirmou Boulos ao comentar a mobilização nas redes sociais em torno da empresa. A Anvisa havia determinado a suspensão da fabricação, comercialização e distribuição de produtos da Ypê, além do recolhimento de itens de lotes específicos, após identificar falhas no processo produtivo e risco de contaminação microbiológica.
“A Vigilância Sanitária mostrou que a fábrica de um detergente estava produzindo detergente contaminado. Já aconteceu com outros produtos, aí você vai lá e fecha a fábrica, suspende o lote, corrige o problema volta a produzir o detergente de maneira correta. É assim em qualquer lugar no mundo e como já aconteceu em vários casos de contaminação no Brasil”, explicou.
Segundo Boulos, a reação política ocorreu porque o dono da empresa é apoiador do bolsonarismo. “O que acontece agora é que o dono da Ypê é um bolsonarista emperdenido, um cidadão que inclusive foi autuado porque estava assediando moralmente os trabalhadores nas eleições de 2022, e aí os bolsonaristas foram tomar as dores dele”, disse o ministro.
O ministro também se mostrou indignado com a viralização de vídeos de bolsonaristas enchendo os carrinhos de supermecados com Ypê e usando produtos da marca de forma inusitadas como tomando banho, lavando frango e até bebendo detergente: “Eu vi um vídeo e não acreditei, achei que era IA. Um cidadão bebendo detergente. A gente se pergunta a que nível chegou a estupidez humana? A que nível chegou a falta de noção, a perda do senso do ridículo?”
Veja o momento da fala:
Boulos citou a circulação de vídeos em que apoiadores da marca aparecem minimizando a decisão sanitária. “A que nível chegou a estupidez humana?”, questionou. A reação à decisão da Anvisa ganhou força em grupos de WhatsApp e redes sociais ligados à direita, com a campanha “Somos Todos Ypê”.
O ministro também criticou políticos que saíram em defesa da marca, como o coronel Mello Araújo (PL), vice-prefeito de São Paulo, e o senador Cleitinho (Republicanos-MG). “Já passou do limite”, afirmou.
“Se o empresário que tem a mesma posição política que você e escravizar, contaminar ou colocar estricnina na comida, você vai comer a comida? É uma coisa que nem Freud explica. Freud diria ‘passa para o próximo que a psicanálise não vai dar conta’. É de uma estupidez o que a gente está vendo”.
A Ypê apresentou recurso administrativo contra a decisão da Anvisa, o que suspendeu automaticamente os efeitos da medida até a análise final pela diretoria colegiada da agência. Mesmo assim, a Anvisa manteve a avaliação técnica de risco e recomendou que consumidores não utilizem os produtos indicados na resolução.
A inspeção sanitária ocorreu no fim de abril na fábrica da empresa em Amparo, no interior de São Paulo. Foram apontadas falhas graves no processo produtivo, como corrosão em equipamentos, problemas no sistema de garantia de qualidade e irregularidades no armazenamento.
Também foram identificados testes positivos para a bactéria Pseudomonas aeruginosa em 80 lotes de produtos acabados entre dezembro de 2025 e abril de 2026.
No fim da entrevista, Boulos reforçou a orientação aos consumidores: “Detergente está contaminado, está com problema, não compre! Independente de quem votou o dono da fábrica do detergente, não tem problema, não estou nem aí para ele”.