Vídeo da Semana: o atentado contra Serra

O VÍDEO DA SEMANA é um retrato histórico do Brasil nas eleições de 2010.

Mostra, primeiro e acima de tudo, a farsa de Serra, fortuitamente captada por uma câmara de televisão. Uma bola de papel acabaria dando a Serra ares de um mártir da democracia, com direito a um discurso — sem emoção nenhuma, como se vê — pela paz.

Faltaram apenas sangue e realidade para que Serra emergisse do atentado da bolinha de papel como nosso Malcom X, ou Martin Luther King. Não há um mísero arranhão, uma só gota de sangue que legitime a dor e a angústia. Se houve ou não uma fita crepe, é um detalhe cômico. O único sofrimento real de Serra, no episódio, é o sentimento de derrota iminente.

Vamos considerar que ele tenha sido, sim, vítima de um duplo atentado. Primeiro uma bolinha de papel, depois uma fita crepe. Na essência, nada muda: Serra encenou como Rojas, o lendário goleiro chileno. Não é à toa que o episódio se prestou a piadas de toda natureza. Uma que vi dizia que no papel estava escrito: “Não se larga um líder assim. Assinado: Paulo Preto.”

O brasileiro converte farsas em comédia com facilidade. É um ser cordial. Outros povos talvez fossem mais severos com Serra. A camaradagem do brasileiro é tão assombrosa que Rojas, depois de tentar roubar a seleção brasileira fingindo ter levado um rojão no rosto num jogo no Maracanã, acabaria contratado depois — já banido pela Fifa do futebol — pelo São Paulo para treinar goleiros.

O sorriso mordaz de Carlos Nascimento, no vídeo do SBT, capta com precisão o drama de Campo Grande. Não que a reportagem do SBT seja exemplar. O repórter, num erro básico de técnica de redação, afirma que Serra se sentiu mal. Serra afirmou que se sentiu mal é o correto.

O quadro da Globo é uma pequena tragédia jornalística. Os jornalistas que aparecem nele — a locutora e o repórter — carregarão esse embaraço pelo resto de suas carreiras. Há duas situações extremas na vida de um jornalista. Uma é quando você aparece ligado a um episódio épico. Os jornalistas da Folha na época das Diretas Já ou os da Veja no Caso Collor, por exemplo, falarão sobre isso — ou já falam —  para seus netos com justificado orgulho.

O outro extremo é quando você está no meio de um erro monumental, como é o caso do atentado — simples ou duplo — de que foi vítima não Serra, mas a dignidade do PSDB e o bom jornalismo.

Os rostos que aparecem no vídeo da Globo — nem vou citar o médico, que em poucos segundos entrou com seu sorriso de Mona Lisa para o anedotário nacional — não saem enobrecidos, definitivamente. Mas a responsabilidade maior está nos letreiros: as pessoas que editaram a reportagem tão sem estro, tão alopradamente que a parcialidade ficou estampada tão bem quanto a própria bolinha captada pelo SBT. Conheci o diretor de telejornalismo Ali Kamel em meus dias de Globo e para mim não existe surpresa nenhuma na maneira como foi editada a reportagem. Existem os aloprados do PT — caras que detesto desde quando meu pai os enfrentou numa eleição pela presidência do Sindicato dos Jornalistas em 1979 — e existem os aloprados do lado de lá, entre os quais Kamel. (Carlos Schroder, gente fina, o chefe de Kamel, não é aloprado, mas falta a ele, oriundo da Produção, ousadia e vigor intelectual para deter os arroubos patronais do subordinado.)

Há os aloprados da esquerda, os do PT, e há os aloprados da direita, como Kamel

Editores como os do telejornalismo da Globo que se preocupam mais em agradar seus patrões do que aos telespectadores podem significar um tiro no pé para a empresa em situações como a de ontem. Eles dão conforto aos donos em dias normais. A “ideologia” está 100% — às vezes mais que isso — protegida. Em circunstâncias dramáticas como as de ontem, porém, eles impedem que a empresa se livre de uma nódoa em algo que, por maior que ela seja, é vital para a sobrevivência de longo prazo: a credibilidade. É como se evitassem uma dor de cabeça mas criassem condições para um derrame posterior.

Sem contar que, rapidamente, eles retiram da companhia o poder de atrair jovens talentosos — cuja causa é o jornalismo isento, que esclareça em vez de contribuir para a confusão. São poucos — e não são os melhores — os que querem passar para a história do Brasil e do jornalismo brasileiro como os jornalistas que aparecem na reportagem da Globo sobre o tumulto no Rio.

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