
Um vídeo que circula nas redes sociais nos últimos dias mostra um pastor orientando um jovem a interromper o uso de medicamentos psiquiátricos durante um culto religioso. O conteúdo foi compartilhado na plataforma X pelo jurista brasileiro Lênio Streck, que questiona os limites da liberdade religiosa e a prática de crime pelo Código Penal Brasileiro, invocando o Ministério Público a atuar no caso.
As imagens registram o momento em que o líder religioso conversa com o jovem e seus pais, e questiona o tratamento médico em curso e afirma que a medicina não estaria ajudando no quadro clínico. Em seguida, o pastor incentiva a suspensão imediata da medicação, atribuindo a melhora exclusivamente à intervenção divina.
Durante a gravação, o pastor afirma que o jovem estaria destinado a se tornar um “caso estudado” para “calar a boca de todos os médicos”. Segundo ele, Deus teria revelado que a mente do rapaz seria um “mistério” e um “milagre”, capaz de confundir a medicina tradicional.
No diálogo exibido no vídeo, a mãe do jovem confirma que o filho faz acompanhamento com psiquiatra, neurologista e terapia, além de utilizar medicamentos controlados há cerca de seis meses. Ela relata que, apesar do tratamento, o quadro teria se agravado nas últimas semanas.
E o ministério público? Isso é liberdade religiosa? De culto? Mandar largar remédio? Qual é o limite? A frase em amarelo não é minha. Mas, faz sentido. O código penal tem nome para isso. pic.twitter.com/CDXuunLTKI
— Lenio Luiz Streck (@LenioStreck) January 24, 2026
Após ouvir o relato, o pastor afirma que recebeu uma resposta divina enquanto se dirigia ao local do culto. Ele reforça que o jovem não precisaria mais do tratamento médico e que a cura ocorreria por meio da fé.
Em um dos trechos mais explícitos do vídeo, o líder religioso repete diversas vezes a orientação para interromper o uso dos medicamentos. Dizia: “Pode cortar o remédio”, enquanto ora e impõe as mãos sobre o jovem.
O pastor também afirma que o jovem seria reconhecido dentro e fora do país, que teria visibilidade pública e que esse reconhecimento serviria para glorificar a Deus, nunca o próprio fiel. As falas reforçam a ideia de que a melhora do quadro ocorreria exclusivamente por intervenção divina, sem a necessidade de acompanhamento médico, o que amplia o debate sobre até onde práticas religiosas podem substituir cuidados de saúde.
Situações como a mostrada no vídeo podem levantar questionamentos legais quando há incentivo à interrupção de tratamentos médicos. A legislação brasileira prevê punição para quem promete curas sem base técnica ou orienta condutas que possam colocar a saúde de outra pessoa em risco. Embora a liberdade religiosa seja garantida, ela encontra limites quando pode haver ameaça à vida ou à integridade física de terceiros.