
O jovem Roberto Farias, de 19 anos, detalhou o instante em que se perdeu no Pico Paraná e escorregou por um penhasco durante a descida do ponto mais alto do Sul do Brasil. A declaração foi feita durante uma entrevista ao Fantástico, da TV Globo, exibida neste domingo (11).
“Tentei voltar pra cima com toda força, puxava, gritava socorro”, contou ele. A queda marcou o início de cinco dias de sobrevivência na mata, depois que ele se separou da amiga com quem havia ido passar a virada do ano.
Roberto iniciou a trilha no dia 31 de dezembro com o objetivo de ver o primeiro amanhecer de 2026 no topo do Pico Paraná, que tem 1.877 metros de altitude e fica sob administração do Instituto Água e Terra (IAT).
Ele e Taiane chegaram juntos ao cume, mas se separaram na descida quando o jovem passou a caminhar mais devagar. A amiga seguiu com outro grupo acreditando que ele retomaria o caminho correto. “Nessa hora eu fiquei: ‘nossa, ele deve ter entrado em uma trilha, alguma coisa, mas vai chegar’”, disse Taiane.
Foi nessa fase que Roberto entrou em um trecho com sinalização precária e escorregou pelo penhasco. Sem possibilidade de subida, ele iniciou um percurso irregular pela mata. “Tentei voltar pra cima com toda a força, puxava, gritava socorro, mas não conseguia”, relatou.
Cinco dias de buscas e travessia extrema
As buscas começaram ainda no dia do desaparecimento, com bombeiros e voluntários percorrendo a região, mas Roberto se deslocou para uma área de difícil acesso conhecida como Cela.
Sem uma das botas, sem óculos — apesar do problema de visão — e com ferimentos pelo corpo, percorreu mais de 20 quilômetros entre pedras e cachoeiras. Em um ponto, precisou pular de uma queda-d’água para seguir adiante, algo que, segundo os bombeiros, nunca havia sido feito sem equipamento.
O jovem contou que manteve o foco na sobrevivência apesar do desgaste físico. “Bate o nervosismo não saber se está no caminho certo. Mas eu falei: ‘vou chegar no meu destino, quero encontrar minha família’”, afirmou. A sede foi uma das maiores dificuldades enfrentadas durante os dias na mata.
Resgate, falhas de acesso e alerta de segurança
No quinto dia, Roberto alcançou uma fazenda e foi socorrido por dois funcionários, que acionaram ajuda. Depois de se recuperar, retornou ao local para agradecer e procurou o Grupo de Operações de Socorro Tático (GOST), que destacou que o ideal, em casos de desaparecimento, é permanecer parado.
“Se tivesse ficado no lugar, uma equipe teria encontrado você naquele mesmo dia”, disse o comandante.
O episódio levantou questionamentos sobre o controle de entrada no parque. Roberto afirma que ele e Taiane fizeram cadastro em uma fazenda vizinha, mas entraram pela portaria oficial após o horário permitido. Em nota, o IAT destacou que o cadastro é obrigatório e que o acesso deve ocorrer apenas por vias legais e dentro do limite de horário.
Reconciliação familiar e desfecho entre os amigos
O resgate acabou aproximando novamente a família de Roberto. “A nossa família estava muito quebrada, cada um para um lado. Foi a reconciliação”, disse a irmã Renata Farias Tomaz. Para ele, a experiência foi transformadora: “É uma nova chance. A vida é uma só e a gente tem que aproveitar o bom dela”.
Dias depois, Roberto e Taiane se reencontraram para conversar sobre o que ocorreu. Ela lamentou o momento da separação: “Se eu não tivesse deixado ele para trás, nada disso teria acontecido”. O jovem, porém, preferiu encerrar o ciclo: “Nosso laço se encerra aqui”.
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