
O primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever, fez nesta terça-feira (20) uma das críticas mais duras já dirigidas por um líder europeu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, ele afirmou que a Europa precisa reagir à ofensiva americana ou aceitar um futuro de submissão em relação a Washington.
“Até aqui, nós tentamos apaziguar o novo presidente na Casa Branca. Nós fomos muito lenientes, inclusive com as tarifas. Fomos lenientes esperando ter o seu apoio para a guerra na Ucrânia”, disse o premiê belga, ao reconhecer que a estratégia europeia de acomodação fracassou diante da escalada recente promovida por Trump.
Segundo De Wever, o momento atual exige uma ruptura clara. “Muitas linhas vermelhas foram cruzadas. Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo miserável é outra bem diferente. Se você se render agora, perderá sua dignidade”, afirmou, em um dos trechos mais contundentes do discurso.
“Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo miserável é outra. Se recuar agora você perderá sua dignidade, e essa é a coisa mais preciosa que você pode ter em uma democracia”
— Bart De Wever, primeiro-ministro da Bélgica, em #Davos pic.twitter.com/NHrAl0JtTh
— Jeff Nascimento | jnascim.info no Bsky (@jnascim) January 20, 2026
O líder belga defendeu uma resposta firme da Europa às ameaças tarifárias anunciadas por Trump contra países que apoiam a Dinamarca na disputa envolvendo a Groenlândia. “Nós, como Europa, precisamos dizer a Trump: não mais. Recue ou iremos até o fim”, declarou, em referência à possibilidade de retaliações comerciais coordenadas.
A crise se agravou nas últimas semanas após Trump afirmar que pretende controlar a Groenlândia, considerada estratégica por sua posição no Ártico e por suas reservas minerais. O presidente americano anunciou tarifas de 10% sobre produtos de países europeus que se opuserem ao plano, com ameaça de ampliação das medidas caso não haja recuo político.
Questionado sobre o status dos Estados Unidos como aliado, De Wever foi direto: “Infelizmente, não. Eu gostaria de confirmar que eles são, mas para isso eles devem se comportar como um aliado.” Para ele, a dependência europeia de tecnologias e plataformas americanas expõe uma vulnerabilidade estrutural. “Precisamos de plataformas tecnológicas próprias. Precisamos nos rearmar”, disse.
O premiê também argumentou que a mudança na postura dos Estados Unidos vai além de Trump. “Nós nos acostumamos com presidentes legais como [Barack] Obama, e não percebemos que a mudança nos EUA não é ligada a uma Presidência”, afirmou, ao sustentar que Washington passou a priorizar o Pacífico e a rivalidade com a China.
No mesmo evento, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reforçou a necessidade de adaptação estratégica do bloco. “Se a mudança é permanente, a Europa precisa mudar permanentemente também. É a hora de aproveitar a oportunidade e construir uma nova Europa independente”, disse.
Von der Leyen também foi categórica ao tratar da Groenlândia. “A soberania e a integridade territorial da Groenlândia e do Reino da Dinamarca são inegociáveis”, afirmou, alertando que tarifas entre aliados seriam “um erro estratégico”. Para ela, a segurança do Ártico “só pode ser alcançada em conjunto”, no âmbito da OTAN.
En el Foro Económico Mundial de Davos, Ursula von der Leyen afirmó que la integridad territorial de Groenlandia y Dinamarca es incuestionable y que Europa está elaborando su estrategia de seguridad. https://t.co/ZBTtsz2bhe pic.twitter.com/iOU2OPd15q
— RT en Español (@ActualidadRT) January 20, 2026
Diante da escalada retórica de Trump, países europeus anunciaram o reforço da presença militar na região ártica e reafirmaram apoio político ao governo dinamarquês. Em comunicado conjunto, Dinamarca, Alemanha, França, Reino Unido, Noruega, Suécia, Finlândia e Holanda declararam compromisso com a defesa da Groenlândia e com a estabilidade regional.
O governo da Groenlândia agradeceu publicamente o apoio europeu, enquanto líderes do bloco avaliam que a crise expõe um ponto de inflexão nas relações transatlânticas.