
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deixou uma entrevista neste sábado sem responder a questionamentos sobre a investigação envolvendo o vice-governador Felício Ramuth (PSD). O caso ocorreu após uma agenda oficial na região metropolitana de São Paulo e foi registrado em vídeo divulgado pela imprensa.
Ele participava da inauguração de uma área de lazer em Embu das Artes quando concedeu entrevista a jornalistas. Segundo o governo estadual, o governador falou por cerca de 15 minutos e “respondeu a seis perguntas de diferentes veículos sobre temas variados”. No entanto, retirou-se do local no momento em que seria questionado sobre o caso envolvendo seu vice.
Felício Ramuth e sua esposa, Vanessa Ramuth, são alvo de investigação preliminar na Justiça de Andorra, pequeno país europeu situado nos Pirineus, com cerca de 86 mil habitantes. O procedimento apura suspeitas relacionadas a possível lavagem de dinheiro.
Em nota divulgada na sexta-feira, o governo paulista afirmou que “não existe acusação contra o vice-governador e sua esposa, e nem processo aberto no Brasil, mas sim uma investigação a respeito do referido Banco And Bank”.
O texto também sustenta que “todos os esclarecimentos sobre o caso já foram prestados diretamente em Andorra, não havendo nova oitiva agendada e nem fato novo. Todos os recursos foram devidamente declarados, bem como todos os impostos pagos”.
No âmbito da investigação, a Justiça de Andorra determinou o bloqueio de US$ 1,4 milhão, aproximadamente R$ 7,2 milhões na cotação atual, depositados em conta atribuída ao casal. O valor permanece indisponível. Ele declarou que os recursos são lícitos e que foram informados à Receita Federal no Brasil.
MUITO BOM!
Tarcísio estava tentando dar lição de moral, mas quando é questionado sobre o esquema de lavagem de dinheiro do seu vice sai correndo. 😂 pic.twitter.com/vUNdzjGL3f
— Guilherme Cortez (@cortezpsol) February 22, 2026
O processo preliminar teve início em 30 de maio de 2023, após o Ministério Público de Andorra receber relatório de inteligência financeira e solicitar a abertura de diligências prévias para apurar eventuais responsabilidades penais e civis relacionadas a possível lavagem de dinheiro.
Simultaneamente, foram requeridas medidas cautelares para o sequestro dos valores. Felício Ramuth e Vanessa Ramuth prestaram depoimento presencial em Andorra no dia 2 de outubro do ano passado, na condição de investigados.
A audiência foi gravada, mas seu conteúdo não foi divulgado publicamente. A oitiva foi mencionada em petição apresentada pela defesa ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), acionado após pedido de cooperação internacional encaminhado pelas autoridades andorranas ao Ministério da Justiça brasileiro.
De acordo com a defesa, o casal foi informado, na ocasião, sobre decisão datada de 8 de junho de 2023 que determinou o bloqueio patrimonial. Os advogados solicitaram que o caso fosse encerrado no STJ e tratado exclusivamente na esfera internacional.
Segundo os autos, a conta no AndBank teria sido “utilizada para canalizar fundos procedentes de atividades ilícitas”. Em manifestação anterior, Ramuth afirmou: “não existe nenhuma acusação formal sobre minha esposa ou sobre mim, (mas) sim uma investigação que envolve o banco” e reiterou que todas as explicações já foram fornecidas às autoridades competentes.
Cria da ditadura
Ao abandonar a entrevista no momento em que o tema se tornou incômodo, Tarcísio de Freitas repetiu um expediente que marcou períodos autoritários do país: o “nada a declarar” como escudo para evitar esclarecimentos públicos. Diante de uma investigação internacional que envolve o vice-governador e o bloqueio de US$ 1,4 milhão, a expectativa mínima é de transparência e disposição para responder perguntas. Silenciar ou se retirar não encerra o assunto, apenas amplia a cobrança por respostas objetivas sobre um caso que segue em apuração fora do Brasil.