
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, afirmou nesta quarta-feira (4) que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está “brincando de roleta russa” com o destino de milhões de pessoas ao ampliar a guerra contra o Irã. A declaração ocorreu em pronunciamento televisionado após o líder estadunidense ameaçar cortar relações comerciais com a Espanha devido à posição do país diante do conflito no Oriente Médio.
A tensão entre os dois aliados da Otan aumentou depois que o governo espanhol proibiu aeronaves militares dos Estados Unidos de utilizarem bases aéreas e navais no sul da Espanha para lançar ataques contra o Irã. A decisão foi tomada após Sánchez classificar os bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel como imprudentes e ilegais.
Em seu discurso, o premiê espanhol criticou diretamente a estratégia militar adotada por Washington. “É assim que começam as grandes catástrofes da humanidade. Você não pode brincar de roleta russa com o destino de milhões”, disse Sánchez a Trump.
“Ingenuo es creer que practicar un seguidismo ciego y servil es una forma de liderar”🤔
“No vamos a ser cómplices de algo que es malo para el mundo, contrario a nuestros valores e intereses por miedo a las represalias de uno”🌍🇪🇸
🗣Pedro Sánchez, claro mensaje a Trump.#LaHora4M pic.twitter.com/qgEyoMYA0L— Riojaberón/❤️ (@riojaberon) March 4, 2026
Ele também reforçou que o a Espanha não pretende apoiar a ofensiva contra o Irã apenas por receio de retaliações políticas ou econômicas. “A posição do governo espanhol pode ser resumida em quatro palavras: ‘Não à guerra’ (no a la guerra, em seu idioma). Não vamos ser cúmplices de algo que é ruim para o mundo nem contrário aos nossos valores e interesses simplesmente para evitar represálias de alguém”, afirmou.
La posición del Gobierno de España ante esta coyuntura es clara y consistente. La misma que hemos mantenido en Ucrania y Gaza.
No a la quiebra de un derecho internacional que nos protege a todos, especialmente a la población civil.
No a asumir que el mundo solo puede… pic.twitter.com/bOUJy4PKK0
— Pedro Sánchez (@sanchezcastejon) March 4, 2026
Sánchez argumentou que experiências passadas, como a Guerra do Iraque, demonstram os riscos de intervenções militares desse tipo. Segundo ele, conflitos desse porte costumam provocar efeitos colaterais graves, como o crescimento do terrorismo jihadista e o aumento dos preços da energia, além de gerar instabilidade internacional prolongada.
A Comissão Europeia saiu em defesa da Espanha e declarou que está “pronta” para proteger os interesses da União Europeia diante das ameaças comerciais feitas por Washington.
As declarações de Sánchez ocorreram após Donald Trump anunciar, na terça-feira (3), que pretende cortar todas as relações comerciais com a Espanha. O presidente norte-estadunidense criticou a decisão espanhola de impedir o uso de suas bases militares no ataque ao Irã.
“A Espanha tem sido terrível. Na verdade, eu disse ao Scott [Bessnet, secretário do Tesouro] para cortar todas as relações com a Espanha. A Espanha chegou a dizer que não podemos usar as bases deles. E tudo bem. Podemos usar a base deles se quisermos. Podemos simplesmente entrar voando e usá-la. Ninguém vai nos dizer que não podemos usá-la”, declarou Trump durante entrevista na Casa Branca.
Na mesma ocasião, o presidente dos Estados Unidos comentou os bombardeios recentes contra o Irã, incluindo um ataque ao prédio da Assembleia dos Peritos, órgão responsável por escolher o líder supremo do país.
“Tudo foi destruído no Irã. Estamos muito bem. Hoje houve outro ataque à nova liderança. O pior cenário é que alguém tão ruim quanto o anterior assuma o poder. Gostaríamos de ver alguém lá que seja melhor”, disse.
Trump também acusou o governo iraniano de atacar civis durante a escalada militar. “O Irã está atacando países que não têm nada a ver com o que está acontecendo. Está atingindo apenas instalações civis”, afirmou.
A escalada de tensões também provocou reações de autoridades iranianas. Um general da Guarda Revolucionária advertiu que novos bombardeios poderão desencadear ataques a infraestruturas econômicas em toda a região.
“Dizemos ao inimigo que, se decidir atacar nossos principais centros, nós atacaremos todos os centros econômicos da região”, afirmou o general Ebrahim Jabari.
Ele também citou impactos no mercado de energia e no comércio global. “Fechamos o estreito de Ormuz. Atualmente, o preço do petróleo passa dos 80 dólares e em breve atingirá os 200 dólares”, acrescentou, segundo a agência de notícias Isna.