Vilões de Bacurau são cada vez mais reais, diz Kleber Mendonça

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual

Por Marcelo Santos

Bacurau: para o diretor, “ideia da perversidade da vilania vem não só da história, mas do Brasil que a gente estava olhando”

O cineasta Kleber Mendonça Filho, diretor de um dos maiores feitos do cinema nacional dos últimos dois anos, Bacurau, de 2019, afirma que o escalonamento da maldade em seus filmes é também um retrato dos anos que foram passando no país e no mundo. “Comecei a perceber que os vilões não são coisas de histórias de quadrinhos ou filmes e super-herói apenas. Existem vilões na vida real e eles começaram a se manifestar cada vez mais. A gente chegou na quebra completa do processo democrático no Brasil, em 2016. Os vilões começaram a falar como vilões. Aí o (Donald) Trump, de palhaço, virou candidato. E de candidato ele foi eleito. E ele passou a ser um vilão de verdade.”

Kleber Mendonça conta que tudo isso leva aos vilões de Bacurau. “São pessoas normais. Um trabalha numa penitenciária. Outro nos recursos humanos de um supermercado, mas são vilões. E acho que a ideia da perversidade da vilania vem não só da história, mas do Brasil que a gente estava olhando. Acho que tem essa diferença entre Som ao RedorAquarius e Bacurau“, observa, citando três de seus filmes mais importantes.

As reflexões foram repartidas durante encontro virtual promovido na noite de quinta-feira (11), pelo CineSesc, em parceria com a editora Companhia das Letras para a divulgação do livro Três Roteiros – O Som ao Redor, Aquarius, Bacurau, lançado em dezembro. A conversa, mediada pela crítica de cinema e roteirista Viviane Pistache, teve ainda a participação da atriz Bárbara Colen, do diretor e roteirista Juliano Dornelles e do ator Thomás Aquino, que trabalharam com Kleber nas produções.

Cena fora do roteiro

Sobre a gênese da crise política do país, ele lembra de uma cena que não fazia parte do roteiro de seus filmes. Foi enquanto gravava com sua equipe, de cerca de 100 pessoas, Aquarius, longa-metragem de 2016, em Recife. No set improvisado na Praia de Boa Viagem, entre gruas, técnicos de iluminação, maquiadores e um batalhão de profissionais, um homem se aproximou e gritou: Vão trabalhar, bando de filhas da puta! “Foi uma das primeiras manifestações que eu senti que as coisas estavam fora do tom do Brasil onde eu estava vivendo alguns anos antes. A primeira vez que achei que o clima estava azedando. Porque depois da reeleição de Dilma, comecei a ouvir algumas coisas que tinha parado de ouvir, como o preconceito com o Nordeste.”

Era como se o mundo rebobinasse para 10 ou 15 anos antes, quando parecia que o país superava alguns dos seus principais flagelos. Dentro do período que nasceu O Som ao Redor (2012), primeiro longa de ficção do diretor pernambucano. “Eu talvez fosse um pouco ingênuo. Ou era a época em que vivíamos. Eu não achava que o senhor de engenho, por mais escroto e filha da puta que fosse, era um vilão. Não queria que Clodoaldo, interpretado por Irandhir Santos (no filme de 2012), fosse um vilão.”

Banalidade da violência

Juliano Dornelles falou ainda sobre a falta de perplexidade diante da violência e de como buscaram tratar o tema de forma mais crua e real em Bacurau. “Muitos estão retratando a violência como algo banal. Como se fosse ir lá comprar um pão. Mas não é isso. Puxar a arma pra alguém é algo limítrofe. É extremo. Não é simples. Os efeitos da violência são importantes. Quando você exibe uma tragédia e o resultado disso não é construído, é um grande problema”, comenta, fazendo uma crítica a glamourização da morte e da posse de armas. Ele lembra que o final de Bacurau não foi uma grande festa ou celebração. “Não teve forró. Teve pessoas devastadas e tristes. Isso é um caminho. Não podemos esquecer nunca dos efeitos devastadores da violência e dos níveis absurdos que uma atitude violenta pode representar na vida de alguém.”

live, que pode ser acessada no canal do CineSesc, tratou ainda, por mais de duas horas, de diferentes aspectos nas construções dos roteiros de Kleber Mendonça Filho, que de forma humana e, por isso, complexa, carrega violência, humor e libido para as telas. “Esses roteiros são frutos de preocupações. Na verdade, estou tentando entender o Brasil”, conta o diretor.

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