Vinícolas ligadas a trabalho escravo têm R$ 66 mi em empréstimos ativos no BNDES

Atualizado em 9 de março de 2023 às 10:26
Operação resgatou 207 trabalhadores em situação análoga à escravidão em Bento Gonçalves, na serra gaúcha, no dia 22 de fevereiro – Foto: MPT-RS/Divulgação
Vinicius Konchinski

Três vinícolas que usavam mão-de-obra de trabalhadores terceirizados mantidos sob condições análogas à escravidão têm ao menos 18 empréstimos ativos no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), os quais totalizam R$ 66,2 milhões.

Os dados de contratos firmados pelo BNDES com as vinícolas Aurora, Garibaldi e Salton estão disponíveis no site do banco.

Empréstimos ativos são aqueles que não foram quitados pelas empresas. O site do BNDES não informa eventuais pagamentos parciais dos financiamentos. Isso quer dizer que é possível que uma parte dos R$ 66 milhões já tenha retornado ao banco.

Ao todo, essas mesmas empresas obtiveram 147 empréstimos com recursos do BNDES, no valor total de R$ 148 milhões. Desse total, 129 empréstimos, totalizando R$ 82 milhões, já foram liquidados.

Aurora, Garibaldi e Salton estão sediadas na chamada Serra Gaúcha. Foi lá – mais especificamente em Bento Gonçalves (RS) – que foram resgatadas 206 pessoas, entre 18 e 57 anos, que colhiam uvas usadas pelas vinícolas a serviço de uma empresa terceirizada: a Fênix Serviços Administrativos e Apoio a Gestão de Saúde LTDA.

Quarto onde dormiam trabalhadores escravizados em Bento Gonçalves (RS) – Foto: Reprodução

Em entrevista ao UOL na terça-feira (7), Tereza Campello, diretora da área socioambiental do BNDES, afirmou que o banco está fazendo um levantamento sobre medidas que podem ser tomadas contra as empresas. “Há um procedimento legal que tem que ser seguido”, ressaltou.

Segundo Campello, em último caso, o BNDES poderia determinar a antecipação do pagamento dos financiamentos ativos. “Se a empresa entra na lista suja do trabalho escravo, dependendo da situação, a empresa tem que devolver o dinheiro.”

Aurora
. 25 empréstimos, com valor total de R$ 49 milhões
. 6 empréstimos ativos, com valor total de R$ 29,2 milhões
. Último empréstimo é setembro de 2022, de R$ 10 milhões

Garibaldi
. 45 empréstimos, com valor total de R$ 25 milhões
. 10 empréstimos ativos, com valor total de R$ 13,9 milhões
. Último empréstimo é setembro de 2022, de R$ 1,4 milhão

Salton
. 77 empréstimos, com valor total de R$ 73 milhões
. 2 empréstimos ativos, com valor total de R$ 23 milhões
. Último empréstimo é abril de 2022, de R$ 13 milhões

Total
. 147 empréstimos, com valor total de R$ 148 milhões
. 18 empréstimos ativos, com valor total de 66,2 milhões

Caso exemplar

Campello disse também que espera que o caso das vinícolas se torne um marco no combate ao trabalho análogo à escravidão. “Eu acho que esse caso vai ser exemplar”, disse. “É uma vergonha, uma tragédia, mas vai cumprir um papel, que é mostrar que daqui para frente as coisas vão ser diferentes.”

“Nossas regras estão sendo revisadas para impedir o atraso [trabalho análogo a escravidão]”, acrescentou. “Temos um dever de casa a fazer.”

Procurado para comentar os empréstimos específicos para as vinícolas, o BNDES não se pronunciou. O site do banco informa que eles são empréstimos indiretos, concedidos com recursos do banco por meio de bancos parceiros.

A vinícola Garibaldi também não se pronunciou sobre os empréstimos e eventuais punições do BNDES. Aurora e Salton não responderam.

As empresas divulgaram em seus sites cartas abertas se solidarizando com os trabalhadores resgatados e prometendo melhorias em seus processos.

Publicado originalmente em Brasil de Fato.

Participe de nosso grupo no WhatsApp, clicando neste link

Entre em nosso canal no Telegram, clique neste link

Diario do Centro do Mundo
O Diário do Centro do Mundo (DCM) é um portal brasileiro de jornalismo digital fundado em 2014. O site publica notícias e análises sobre política, economia, cultura, mídia, comportamente -- tudo o que é relevante, no Brasil e no exterior