“Você não pode apagar fatos”: escritora de livros didáticos explica ao DCM por que eles não serão reescritos

Bolsonaro e o colombiano que enfiou no MEC

O colombiano de extrema-direita Ricardo Vélez parece estar com os dias contados na equipe de ministros de Jair Bolsonaro.

Pelas dicas emitidas pelo presidente, o pescoço de Vélez deverá ser guilhotinado na próxima segunda-feira.

Nada a comemorar. Os candidatos a substituir Vélez não deixam ninguém esperançoso, são olavistas ou militares.

Por isso, com receio de que a proposta estapafúrdia de alterar livros didáticos de modo a negar a existência da ditadura bem como a denominação “golpe” para o ocorrido em 1964 ainda sobreviva à queda do ministro, a ABRALE – Associação Brasileira dos Autores de Livros Educativos emitiu uma nota oficial repelindo intromissões.

“O conhecimento reunido nesses livros se respalda, necessariamente, no conjunto das pesquisas acadêmicas — elaboradas com método e rigor científico –, constituindo-se em conteúdo essencial à formação da cultura escolar, e afastando-se o máximo possível de opiniões pessoais, em geral envoltas em imprecisões e em paixões nada adequadas ao ensino de crianças e jovens.”

Em seguida ao trecho de esclarecimento sobre a metodologia não basear-se em “achismos” como os de Bolsonaros, Vélez e Ernestos, a associação reitera:

“Esse caminho impede a obra didática de apresentar conteúdo artificial e impreciso. Qualquer outro percurso a ser seguido corre o risco de resultar na criação de um livro sem respaldo nem credibilidade ou que expresse atos de imposição ou de censura prévia ao trabalho intelectual de inúmeros profissionais conscientes de suas atribuições.”

Conteúdo artificial e impreciso não pode, entenderam ou precisa desenhar, senhores ministros da Nova Era?

Maria Tereza Rangel Arruda Campos, doutora em linguística aplicada e autora de livros didáticos, falou ao DCM.

“Você não pode apagar os fatos. Pode-se ter interpretações, mas não apagá-los. E o livro didático não faz interpretações, ele apresenta fatos”, afirma.

“Então não adianta querer dar uma inclinação de que não houve porque já está compreendido até pela direita conservadora que foi um golpe, que foi ditadura. A história é feita de fatos e eles estão aí.”

“A proposta não é apenas esdrúxula, é ilegal. Temos um acordo de não revanchismo firmado no final do período militar que impede que se faça ‘revisões’ históricas alterando os fatos. Ou seja, estamos falando de um ministro que pouco entende das leis brasileiras e propõe uma revisão daquilo que ele não tem autoridade para revisar”, falou Guilherme Jacobik , pedagogo, doutor em ensino de Matemática, Filosofia e História e filho de um ex-preso político.

O amadorismo e falta de articulação do Ministério da Educação do governo de Jair Bolsonaro preocupam.

Em pouco mais de 90 dias a pasta promoveu 15 exonerações, anunciou medidas estúpidas que precisaram ser desditas, propagou devaneios dignos de esquetes satíricos. O MEC, como de resto todo o governo Bolsonaro, é uma nau à deriva.

E no que depender de Bolsonaro, nada indica que a troca de ministro significará melhoria.

Mas, pelo menos, autores de livros didáticos já sinalizaram que não migrarão para a ficção.

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