
Uma minuta de despacho do Tribunal de Contas da União (TCU) encontrada no celular do banqueiro Daniel Vorcaro acendeu um alerta na CPI do INSS e pode indicar tentativa de interferência em decisões do Banco Central sobre o Banco Master. O documento, sem autoria ou assinatura, determinava que a autoridade monetária suspendesse “toda e qualquer decisão” relacionada à instituição financeira.
Segundo o Globo, duas versões do arquivo, nomeado “TCU_mora_excessiva”, foram criadas em 29 de agosto de 2025, em horários distintos. Além da suspensão de decisões, o texto previa a oitiva de técnicos do Banco Central em até dez dias. Não há confirmação sobre quem elaborou a minuta nem se ela foi enviada a terceiros.
O material foi identificado entre mais de 12 mil documentos extraídos do celular de Vorcaro e compartilhados com o Congresso. À época, o relator do caso no TCU já era o ministro Jhonatan de Jesus, que recentemente decidiu suspender o processo que analisa a atuação do Banco Central na liquidação extrajudicial do Banco Master até a conclusão das investigações.
O contexto em que a minuta foi criada coincide com o momento em que o Banco Central se aproximava de uma decisão sobre a operação entre o BRB e o Master. Naquele período, já havia cobranças da autoridade monetária para que o banco resolvesse problemas de liquidez, além de alertas do Ministério Público Federal sobre suspeitas de irregularidades em ativos vendidos por mais de R$ 12 bilhões.
Mesmo diante desse cenário, o governo do Distrito Federal solicitou ao TCU acompanhamento da análise e, posteriormente, pediu a suspensão de decisões do Banco Central em termos semelhantes aos da minuta encontrada. Técnicos do TCU criticaram a postura em auditoria, apontando tentativa de reverter decisão técnica.
“Essa insistência em utilizar, de forma oblíqua, a via de controle externo na possível tentativa para reverter decisão técnica que havia concluído pela inviabilidade da operação, especialmente diante das irregularidades já detectadas (indícios de fraudes nas cessões anteriores, ativos de existência duvidosa, ausência de due diligence), revela potencial descolamento entre a gestão da coisa pública e os princípios constitucionais da administração pública”, afirmaram.
Os técnicos também destacaram: “A possível tentativa de pressionar o regulador setorial para aprovar operação que expunha o BRB a riscos bilionários, invocando a atuação do TCU como instância recursal do BCB [Banco Central do Brasil] em matéria de discricionariedade técnica regulatória, configura conduta que merece reprovação no âmbito do controle externo e reforça a necessidade de apuração das responsabilidades pelos órgãos competentes”.
O episódio também envolve diretamente o ministro do TCU Jhonatan de Jesus, relator do caso que analisa a atuação do Banco Central na liquidação do Banco Master. Foi ele quem decidiu, na última terça-feira (24), suspender o processo até a conclusão das investigações, medida que reforçou o peso institucional do caso dentro da Corte de Contas.

Antes disso, Jhonatan, ex-deputado pelo Republicanos, já havia rejeitado uma representação do Ministério Público junto ao TCU que pedia a apuração de possíveis omissões do Banco Central na fiscalização do Master e irregularidades na operação com o BRB. A atuação do ministro ocorre em meio a pressões políticas e técnicas, já que o caso envolve interesses relevantes no sistema financeiro.
Indicado ao TCU com apoio de lideranças do Centrão, como o senador Ciro Nogueira, que admite ser amigo de Daniel Vorcaro, Jhonatan também esteve no centro de movimentações posteriores à liquidação do banco.
Ele chegou a convocar o Banco Central para prestar esclarecimentos, determinou inspeções e, nos bastidores, cogitou reverter a liquidação extrajudicial, recuando após pressão de colegas do TCU, integrantes do STF e agentes do mercado financeiro.
Auditoria do TCU já havia identificado “graves irregularidades nas carteiras de crédito cedidas pelo Banco Master ao BRB”, incluindo artifícios contábeis para ocultar a real situação financeira da instituição. O Banco Central também vinha alertando sobre dificuldades de liquidez desde 2024, culminando na liquidação extrajudicial do banco.
A defesa de Vorcaro afirmou que não comentará o caso. “Trata-se, inclusive, de fatos que já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração”, disse.